A produção não pode parar

Por Luty Mota, para Coletiva.net

 

Me pediram pra escrever um artigo sobre 'Produção'. Fiquei um tempão tentando escrever. Primeiro, veio aquele bloqueio criativo, não sabia nem por onde começar! Afinal, não sou uma redatora ou jornalista. Depois, veio uma falta de fé na minha própria função, aquela que venho defendendo com unhas e dentes. "Como assim, perdi a fé? Calma, inspira, expira. Sem pânico."

Comecei a escrever a partir do conceito básico sobre a função de um produtor, seja ele gráfico, eletrônico, de eventos ou outros. Como o conhecimento técnico é importante e tem sido deixado de lado pelas agências, que optam por deixar a produção a cargo de outras pessoas que, normalmente, já acumulam outras funções e/ou não têm a menor ideia de como fazer a coisa funcionar. Resultado disso a gente vê por aí: materiais com baixa qualidade, alto índice de reimpressões, dívidas com fornecedores por conta dessas reimpressões ou por orçamentos feitos errados por falta de conhecimento técnico de quem solicitou. É a grana do cliente indo pro ralo.

São raros os profissionais das outras áreas com conhecimento pra tocar a produção sem problemas. A gente acredita que com toda tecnologia que temos hoje, as pessoas sabem um pouco de tudo, mas na verdade, tem muito profissional aí que só quer saber do seu próprio 'afazer'. E isso não é de agora.

Enquanto tentava escrever, porque parei por vários dias, por várias vezes, aconteceram duas coisas que me fizeram abrir um pouco mais a minha mente.

Criamos o Grupo de Produção RS pra mostrarmos ao mercado a importância da produção dentro do processo. Por que atenção total na criação e no atendimento e deixar produção e até mesmo a mídia pra qualquer um fazer? Sabia que até pra produzir pro digital tu precisas ter um mínimo de conhecimento pra investir certo a verba do cliente? Não adianta uma campanha linda ser superbem planejada, criada e apresentada se o 'entregável' for um desastre, não é mesmo?

Mas olhando mais atentamente para nossas discussões internas, me dei conta de que estamos defendendo com radicalismo um modelo quadrado de trabalho. E aqui assumo minha parcela de culpa, que inconscientemente incentivei até ontem esse tipo de pensamento.

Continuo acreditando e defendendo que nosso conhecimento técnico é importante, assim como em todas as áreas. Somos uma contribuição importante para o processo criativo. Mas não podemos ser resistentes às mudanças!

Assisti uma vez a um vídeo da Viviane Mosé sobre gestão de carreira no qual ela falava, entre outras coisas bem legais, sobre o que vivemos atualmente no mundo corporativo, no qual conhecer apenas sua área específica não serve mais. Precisamos ampliar nosso conhecimento.

Todos os profissionais do mercado têm corrido atrás da 'evolução'. Estudam, pesquisam, trocam informações, agregam conhecimento para não ficarem parados no tempo, pra aplicar as melhores ideias, melhores técnicas, atingir seus objetivos tanto pessoais quanto profissionais. Chegar ao melhor resultado principalmente para seus clientes. E nós, produtores, ainda estamos ali, parados no tempo, querendo que o produtor gráfico faça só gráfico, o eletrônico só eletrônico e por aí vai. Se tivermos que fazer mais de uma coisa, já é acúmulo de funções, é exploração. Não vamos entrar aqui no mérito 'trabalho x remuneração', porque esse assunto atinge todo mundo, todas as profissões, etc.

O caso aqui é que não estamos sabendo nos encaixar dentro dessa 'evolução'. Eu fico prestando atenção nas conversas entre os grupos do mercado nas nossas reuniões e tento imaginar qual seria nossa real contribuição pra construção dessa nova visão do mercado. E fico triste quando percebo que não estamos contribuindo com nada. Somos dispensáveis?

Na verdade, somos fundamentais, mas precisamos mudar, nos abrir pro novo. Nãos somos mais produtores gráficos ou produtores de eventos ou produtores digitais, produtores quadradinhos. Somos de tudo um pouco. Somos viabilizadores, conectores. Podemos, sim, participar da criação daquela ideia genial. Temos capacidade pra isso. Podemos evoluir junto com a agência e com o cliente. Quero um dia chegar lá na reunião da ARP e contribuir cheia de certeza das nossas boas ideias.

Ter trabalhado em várias funções me tornou a profissional que sou. Alguns podem dizer que não sou a melhor profissional do mercado, mas tenho certeza do meu valor. Mas isso só foi possível, porque eu me desafiei a aprender coisas novas, abri minha mente pra novas ideias, comprei as brigas que apareceram pela frente. Agradeço sempre às pessoas que me deram as oportunidades e apostaram no meu potencial. Minha função pode até parecer obsoleta, mas eu não sou.

Não vou deixar nunca de defender a produção, porque eu acredito que o conhecimento técnico é muito importante. Vou lutar sempre pela nossa valorização e fazer tudo que estiver ao meu alcance para ajudar outras pessoas a buscarem o aperfeiçoamento, o conhecimento, tanto profissional quanto pessoal.

Aos que estão desanimados: é pra frente que se anda. E junto fica mais fácil encontrar o caminho. Junte-se ao Grupo de Produção RS.

Luty Mota é produtora e mídia na Blank Comunicação e diretora do Grupo de Produção RS.

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