Comunicadores feitos a facão

Por Fabio Berti, para Coletiva.net

A percepção sobre os movimentos e os impactos da contemporaneidade é condição básica para os profissionais da Comunicação Social. Conhecer a tecnologia OTT (sigla do termo em inglês over the top) é tão importante quanto fazer uso de growth hacking (marketing orientado a experimentos) na comunicação corporativa ou mesmo do inbound marketing nas redes sociais digitais. Ah, tem que se ligar nas novidades da AI ou IA (inteligência artificial).

Destrinchar técnicas com essas ferramentas faz parte do atual mercado de trabalho de jornalistas, publicitários, RPs e de todas as funções derivadas e acessórias com nomes legais, preferencialmente em inglês. Entretanto, como questionar é da essência do processo comunicativo, costumo me auto interrogar: qual a diferença que os comunicadores fazem na vida das pessoas atualmente?

Esse mercado é colaborativo. Sim, cada um entra com o que pode e o que tem de melhor. Profissionais iniciantes entram com a dedicação, com jornadas infindáveis em redações, agências (ainda se usa esse nome?), departamentos de marketing e semelhantes. Muitas empresas entram com a oportunidade. Exato, a oportunidade de 'tu trabalhares para mim'. 'Tá bem, te pago o piso. Mas prefiro estagiário'. É apenas para 'produzir conteúdo'. Apenas não descartando que um punhado de barro amassado entre os dedos também é 'conteúdo'.

Quem confunde 'conteúdo' com informação, geralmente, é quem sustenta que a produção da informação está cada vez mais na mão do público. Não, a produção de 'conteúdo' é que está cada vez mais nas mãos do público. Produzir informação é coisa séria, vide a situação atual do país. Produzir informação é atividade que exige técnica apurada, ética profissional e, acima de tudo, compromisso social.

É disso que se trata na faculdade. Aqui, docentes experientes, técnicos habilitados e estudantes compartilham um ambiente construtivo que valoriza a linguagem, as características dos diferentes veículos, as tecnologias que surgem a cada dia, desenvolvendo competências profissionais. E aqui, nesse ambiente horizontal e de partilha, incentivam-se a todo momento debates sobre a área de conhecimento, o campo profissional e a sociedade em que vivemos. É o que alguns podem confundir com doutrinação, mas é a mais pura defesa da liberdade individual.

Primamos por entregar ao mercado profissionais qualificados tecnicamente, sem abrir mão da criticidade. Refletimos sobre a importância de uma remuneração justa, de uma jornada de trabalho humana, de uma infraestrutura adequada. Talvez neste ponto resida o tal gap que muitos chefes enxergam entre as faculdades de comunicação e o mercado. Geralmente, são os mesmos que querem moldar nossa garotada a facão.

Fabio Berti é coordenador da Escola de Comunicação e Hospitalidade do IPA, que integra os cursos de Jornalismo, Publicidade e Turismo.

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