Jornalismo ESPECIALIZADO Esportivo - A pauta muito além do futebol

Por Nathália Ely, para Coletiva.net

Recentemente, o Coletiva.net realizou uma edição especial do Coletiva Debates sobre Jornalismo Esportivo. "Pontaço" marcado pelo portal. O encontro colocou lado a lado profissionais experientes e iniciantes para tratar de um assunto pertinente da Comunicação.  Explico porquê. Para isso, deixa eu contar uma historinha.

Aos 12 anos de idade a menina já sabia: seria jornalista esportiva. A paixão pelos esportes e pela escrita a levaram a tomar tal decisão. Ao ingressar na faculdade desejada, no entanto, a então adulta percebeu um detalhe: cadê o jornalismo esportivo entre as disciplinas a serem estudadas? O cultural, o político, o ambiental, eles existiam, mas e o esporte?

Encarado até mesmo pela academia como uma editoria talvez "menor", o Jornalismo Esportivo por muitas vezes era tachado apenas de entretenimento. Como uma área em que "qualquer um" pode atuar, sem a necessidade de uma preparação e um estudo específico. O questionamento daquela futura jornalista esportiva, no entanto, era: "Se é preciso pesquisar, investigar, checar fonte. Se, para se elaborar uma notícia sobre esportes, é preciso seguir valores como notoriedade, relevância, tempo. Se a construção da notícia esportiva segue as mesmas etapas de outras áreas do Jornalismo - com algumas diferenças em termos de planejamento, pois alguns fatos já estão agendados e as personagens já são, muitas vezes, conhecidas. Se é preciso trabalhar com a ética e outros preceitos. Então, por que ele não era tratado como tal?".

A formanda então pesquisou, e sob a luz de Antonio Alcoba López - professor espanhol com vasta publicação na comunicação esportiva e que influenciou pesquisadores brasileiros - que defende que o Jornalismo deve ser tratado como uma especialização, ela começou a entender. A resposta talvez esteja no fato de que o esporte tenha um elemento adicional: a paixão. Mais do que ajudar, no entanto, esse item pode dificultar o trabalho de quem atua nessa área. Isso porque esse sentimento leva muitos espectadores a acompanhar, a pesquisar e a entender sobre a modalidade esportiva. Assim, no Jornalismo é preciso ir além.  É preciso fugir da mesmice e superar, com informações verídicas e relevantes, o bate-papo entre amigos.

Talvez essa seja apenas uma das dificuldades do jornalista esportivo. Como o professor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) Sergio Carvalho -seguidor de Alcoba - já dizia, "para ser jornalista esportivo talvez seja preciso saber mais do que jornalistas de outras editoriais". Isso porque, além do esporte, ele precisa entender os fatores que influenciam e permeiam o mundo esportivo. Assim, é preciso saber história, sociologia, economia, fisioterapia, educação física, medicina, direito, entre outros.

Ao ingressar no mercado de trabalho, a jornalista formada constatou o que já percebia como consumidora do noticiário esportivo: a falta de espaço, sobretudo na mídia tradicional, para tratar de outras modalidades esportivas que não o futebol.  A disputa para divulgar uma pauta diferente do esporte mais popular no Brasil era, e continua sendo, difícil. A veiculação de outras modalidades se restringe às competições midiáticas, aos campeões e às histórias motivadas pelas dificuldades e superações.

A abertura maior vem com a tecnologia, com sites especializados sobre as diferentes modalidades. Canais específicos nas redes de televisão por assinatura também conseguem ampliar essa pauta. E esses canais são utilizados pelos jornalistas para cumprir o papel de colaborador no crescimento das modalidades. Fala-se muito "outras modalidades não vendem!", mas o Jornalismo é parte importante na "venda". Afinal, uma empresa quer investir em um esporte em que sua marca apareça.  

Colocar as modalidades na agenda de notícias tornam as atividades também mais conhecidas. Assim, quem sabe, o público interessado comece a praticar e, dessa forma, o profissional da imprensa colabore no aumento do número de praticantes. A solução para o webjornalismo tornar essa veiculação viável, então, é a parceria com instituições e pessoas ligadas ao esporte. Além da aproximação com as fontes, gerar trabalhos integrados.

E é esse o caminho, que hoje, essa jornalista formada e especializada em jornalismo esportivo tenta colocar em prática.

Quem acredita e trabalha nessa área sabe que é difícil. Muitas vezes, nos sentimos "remando contra a maré", mas acredito em um ditado que diz que "a união faz a força". Quem sabe, juntos, nossa remada possa provocar uma onda. E que essa onda cresça, não para engolir o esporte mais popular do país, mas para surfarmos juntos às outras modalidades e pautas. Para que assim, ultrapassemos as quatro linhas do gramado de futebol, entremos no rugby, no beisebol, nas quadras do voleibol, nos tatames das lutas, nas águas da natação, e possamos, por fim, desenvolver um jornalismo que realmente seja ESPECIALIZADO ESPORTIVO.

Nathália Ely é jornalista especializada em jornalismo esportivo pela Ufrgs. Diretora do portal Travinha Esportes (www.travinha.com.br).

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