O jornalismo e a diplomacia

Por Thiago Copetti, para Coletiva.net

Formado em Jornalismo há 20 anos, decidi, há três, fazer outra graduação em busca de novos conhecimentos. Há cerca de 15 anos me tornei "turista profissional", conheci cerca de 25 países e encontrei no curso de Relações Internacionais quase um caminho natural. A bagagem de muitas viagens me aguçou ainda mais a vontade de entender como diferentes nações se relacionam. E, para mim, RI e Jornalismo são parentes próximos. Ambos procuram entender e explicar economia, política, sociedade... A diferença é que o jornalista busca esses temas em todos os ambientes (como bons generalistas que somos) e o profissional de RI (o que devo ser em 2019) foca sempre nas relações entre e além das fronteiras.

Por uma sorte muito grande e por uma escolha do jornal onde atuo como repórter de Economia, o Jornal do Comércio, uni neste ano as três coisas que mais amo fazer: "reportar", "turistar" e "interpretar" como diferentes países convivem, entram em conflito e se entendem. Integrando a segunda edição do programa China-Latino America and Caribean Press Center, idealizado pelo governo de Xi Jinping e pela China Public Diplomacy Association, encontrei o ponto de convergência entre a comunicação social e as relações internacionais de forma prática.

O programa do qual faço parte, de maio até outubro, é uma impressionante ação estratégica do gigante asiático, como é chamada a China. Fazer do Jornalismo uma ferramenta de diplomacia foi uma estratégia anunciada pelo presidente chinês em 2016, durante a Cúpula de Meios de Comunicação da China e América Latina. No encontro, revelou que, ao longo dos próximos cinco anos, investiria em um programa para tornar cerca de 500 profissionais de comunicação em especialistas em China. E cá estou eu, agora morando em Pequim, fazendo parte do programa anunciado há dois anos, no Chile.

Nesta segunda edição do programa (o primeiro foi em 2017, logo após o anúncio, portanto), integro um grupo de 13 profissionais de diferentes países da América Latina e Caribe. Também fazem parte do programa outros 26 jornalistas da África e um grupo de 16 jornalistas de diferentes países asiáticos. Investir no jornalismo como ferramenta de relações internacionais se enquadra em uma área da diplomacia que muito me agrada. Chama-se diplomacia people-to-people.

Mas o que vem a ser a diplomacia pessoa a pessoa? É basicamente buscar integrações culturais, intercâmbios estudantis, aprofundar conhecimentos e fugir das tradicionais ações governamentais e comerciais. Como jornalista, daqui, conto a China para os leitores como um todo, pessoas comuns, não ficando restrito ao tradicional círculo diplomático ou governamental. No final das contas, são as pessoas que tomam decisões, em diferentes esferas (das pessoais às empresarias, e também políticas e diplomáticas).

Alguns podem dizer que estamos aqui para falar bem da China. Não, estamos aqui para conhecer a China. Estando aqui, podemos falar bem ou mal, no momento ou no regresso. É um risco que a China corre ao colocar os jornalistas no front. Temos programações oficiais? Sim. Mas temos o nosso tempo livre e o nosso olhar pessoal, aguçado e questionador, sobre a China e sobre seus problemas também. Alguns deles: a pobreza de boas da população (especialmente no interior), a poluição e até mesmo o fato de que praticamente todos os veículos de comunicação, aqui, são pertencentes a governos central, de províncias, distritos, sindicatos e ao Partido Comunista.

Olhando daqui, porém, vejo mais qualidade do que defeitos.  E, como estive aqui há exatos dez anos, como turista, vejo que muita coisa evolui (como a poluição) e que tende a evoluir cada vez mais. E, vale lembrar, o mundo todo não é obrigado a ser capitalista, nem comunista, nem socialista. É isso que descobri aqui: que a China não se enquadra em nenhuma dessas definições. O modelo chinês de governança e o que é a China, hoje, ainda está para ser definido. É algo único, assim como é a comunicação e a diplomacia people-to-people.

 

Thiago Copetti é jornalista e repórter do Jornal do Comércio

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