'Tem hora pra tudo'

Por Ariane Xarão, para Coletiva.net

Os apontamentos a seguir pretendem: a) demonstrar um movimento estratégico em Publicidade, a partir da análise da última campanha da Telefonia Vivo, intitulada 'Tem hora pra tudo', e b) ponderar sobre as escolhas assumidas na campanha, que ratificam tendências relevantes à Comunicação. A versão completa dos VTs da campanha, que expressa ensejos para o ano de 2019 sob a trilha de 'Spending My Time' (Roxette), pode ser acessada no YouTube. Ao assistir a versão completa, e mesmo os vídeos separadamente, percebe-se uma transformação no posicionamento da anunciante, que desloca a centralidade da tecnologia para a importância da relação entre as pessoas, através do olhar, do momento, do contato, de tudo que é real e dispensa a intermediação de um smartphone.

De modo generalíssimo, há alguns anos temos acompanhado as empresas de telefonia - e de outros segmentos - determinadas em publicizar a importância da tecnologia, explorando tudo o que há entre o usuário e as infinitas possibilidades de seus smartphones, cheios de funcionalidades e sedentos por conexões velozes. Mesmo assim, sempre houve uma linha de pensamento que considera a Comunicação um ato feito por e para pessoas, passível de falhas, da necessidade de tempo e ciente de que a velocidade das coisas muitas vezes negligencia o que é de fato relevante.

É fato que todo o paradigma, capaz de arrebatar um padrão de comportamento, vem para propor uma mudança e, seguramente, trazer algo que, possivelmente, culminará em um produto ou serviço. É fato, também, que comportamentos obedecem a ciclos, que por vezes são rompidos na tentativa de se recuperar algo que pareia relevante e necessário, exatamente o que a Vivo fez ao se reposicionar com a campanha 'Tem hora pra tudo'. Por isso, ao invés de recomendar que as pessoas 'ganhem tempo', a anunciante recomenda que 'se perca tempo', indo na contramão de tudo o que já propôs um dia, como velocidade e rapidez.

É interessante observar que o que está na contramão é capaz de se diferenciar e criar tendência. Enquanto os concorrentes estrategicamente apostam em uma mesma linha criativa que potencializa a instantaneidade das suas conexões, Vivo propõe o oposto. Propõe essência, interpessoalidade e a necessidade da congregação de um universo de presenças. E isso representa muito. Ainda que estejamos imersos no mundo tecnológico e digital, a lucidez do que importa é uma estratégia e tanto para cativar quem está precisando de fato 'perder um pouco de tempo' nesse mundo online - e não são poucas pessoas, não. Nós, comunicadores, devemos olhar para o que realmente importa e ter a perceptibilidade de que as intermediações não dispensam de maneira alguma o que é palatável. 'Tem hora pra tudo'.

Ariane Xarão é publicitária e mestre em Comunicação Midiática, Mídias e Estratégias Comunicacionais.

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