A equivocada cruzada dos suseranos da imprensa

Por Álvaro Larangeira Os suseranos da imprensa brasileira incomodam-se com a exigência do diploma do curso superior em jornalismo para a obtenção do registro …

Por Álvaro Larangeira
Os suseranos da imprensa brasileira incomodam-se com a exigência do diploma do curso superior em jornalismo para a obtenção do registro profissional de jornalista porque o canudo simboliza um campo nebuloso aos cruzados do feudalismo midiático: a universidade. A tríade raciocinar-questionar-criticar provoca erupções cutâneas nestes senhores. Conseqüência do desconhecimento. Pouco sabem a respeito da comunicação como húmus das relações humanas, das potencialidades simbólicas e reais embutidas na ação das palavras, das combinações e recombinações possíveis com a pena, do prazeroso incêndio do espírito proporcionado pelas teias comunicacionais, do devaneio sóbrio impulsionado pela empatia com a informação.
Em vez de insuflar a imaginação e o conhecimento, os proprietários feudais enaltecem a fabricação de vassalos. Arregimentam as ovelhas. Exorcizam as leituras dos Adorno, Mattelart, Chomsky, Morin, Baudrillard, Maffesoli, Benjamin, Foucault, Heidegger e Nietzsche da vida. Como não conhecem, têm medo. A cartilha feudatária dos manuais de redação contém o roteiro básico dos profissionais de casa. Se vovô viu a uva, pergunta-se a ele o que, quem, quando, onde, como e por que viu. Mas compreender a historicidade do fato, os imaginários da cena e dos personagens, as linguagens dos discursos palpáveis, dos discursos dissimulados e dos discursos esquecidos e ainda encontrar os lençóis freáticos das leituras e das formas de contar, aí já é pedir demais. O jornal fecha daqui a pouco e não há tempo para firulas.
Mas há, sempre há, quando a intenção é entender o mundo. Seja para averiguar, indagar, questionar, esclarecer, conhecer, conferir, investigar, comprovar, contestar, documentar e interpretar o fato - como se requer do jornalista - ou, no caso do estudante, buscar o saber integrado no qual se trabalhe os princípios da ordem, desordem, interações, fatores aleatórios, a distinção e fusão objeto/ser/ambiente, a percepção do universal/local/singular, as associações diferenciadas e a valorização das interfaces, inter-retroações, sinergias, desvios e reorientações - como sugere Edgar Morin para a edificação do pensamento complexo.

A reportagem e a pesquisa, ó paladinos da imprensa olimpiana!, convergem às veias da informação. Futricam a argamassa do conhecimento.
Divagam pelos olhos da vida à procura de mais vida. De nada valem nesta caminhada o acadêmico nariz empinado para com o mundo das redações ou a empáfia do carteiraço da Rede Globo, Rede Brasil Sul ou Folha de São Paulo - com ou sem diploma - nas ruas ou nas palestras para estudantes de jornalismo. Percebe-se quando o mosquito tenta se passar por águia. Tampouco tira-se proveito do desentendimento entre a reflexão e o exercício laboratorial nas universidades ou do discurso obreirista dos veículos para menosprezar a preparação intelectual desenvolvida nas faculdades - nem todas uma Ana Paula Arósio, é lógico.
Se bem que se as organizações Globo, o SBT, a RBS e os grupos Abril, Folha e Estado, por exemplo, revissem a equivocada cruzada contra a necessidade do diploma para o registro profissional, estreitassem o diálogo com as universidades, incentivassem seus funcionários para o aperfeiçoamento em mestrados e doutorados e investissem nas parcerias em pesquisas acadêmicas na área da comunicação, talvez houvesse uma melhora dos seus produtos. Uma coisa é certa, evitariam investimentos precipitados e desastrosos e teriam uma compostura mais digna do que se curvar com um pires na mão para conseguir a aprovação do projeto de lei que permite o ingresso de até 30% de dinheiro estrangeiro nas empresas de comunicação nacionais.
Jornalista e doutorando em Comunicação Social / Pucrs
( [email protected])
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