A facada na Comunicação

Por Max Rathke, para Coletiva.net

A Comunicação de uma forma geral foi quem mais sofreu com o atentado ao então candidato a Presidente da República Jair Bolsonaro. Peço calma aos eleitores deste político, pois me explicarei. Não fui, e nem quero ser, uma "mãe Dináh", mas, quando vi a notícia do atentado em meio a campanha, falei: "Esse cara ganhou a eleição".

Pra quem entende e vive intensamente da Comunicação, tive essa visão. Tinha uma convicção de que, após o ato criminoso, o político esfaqueado tinha conquistado o voto de milhões de eleitores por causa do sofrimento a que foi vítima. O desafio do presidenciável era conseguir sobreviver para confirmar a previsão.

Questiono até hoje se foi um ato arquitetado. Afinal, quem não gosta de uma teoria da conspiração para espalhar aos conhecidos? Imagina algo cinematográfico para ficar registrado na história e a gente ter vivido isso para contar para filhos e netos...

De qualquer forma, a facada em si teve suas consequências diretas no personagem central e um longo e doloroso tratamento. Por outro lado, confirmando a previsão, teve sua compensação nunca imaginada antes de qualquer outro vidente profissional. Não imagino também a versão contrária de que houve um plano de se flagelar para tirar vantagem da situação.

Bem, a questão é que o maior atingido pela facada continua convalescendo até hoje. Sim, ela mesma: a comunicação. E, mais especificamente, dá para falar da publicidade. Essa foi golpeada sem dó e de forma contínua. E pior, os golpes ainda não cessaram.

Desde o episódio ocorrido com nosso agora presidente, ouvimos continuamente que ele se elegeu sem investir quase nada em campanhas publicitárias; que seu canal foi o meio digital e feito de forma caseira e com baixo custo; e, além disso, contando com um envolvimento genuíno de seus apoiadores, que compartilhavam suas mensagens.

Esse é o discurso aceito como verdade. Ou melhor, esses são os fatos apurados. Quando penso nisso, lembro de já ter ouvido essa conversa em outra ocasião. Afinal, o (Donald)Trump, lá nos Estados Unidos, foi eleito pelas redes sociais.

Lembro ainda de ter atendido a um cliente, alguns anos atrás, que queria me contratar para usar a mesma estratégia do Obama - investir em mídia digitais. Até aí, tudo bem. O problema estava no motivo: apenas por que tinha convicção que "gastaria" menos e teria um resultado expressivo. A quem interessar entender: Trump e Obama souberam usar novas tecnologias em suas campanhas, mas gastaram milhões - quiçá bilhões -, de dólares em mídia tradicional, assim como seus concorrentes que não alcançaram a vitória.

Realmente acredito que, muitas vezes, a ignorância é uma benção, mas, normalmente, ela nos coloca em risco. Pode até matar. E a comunicação está ferida de morte por tantas baboseiras ditas, criadas, propagadas.

Queridos eleitores, Bolsonaro foi vencedor por causa da facada que levou. Porque o tempo de exposição na mídia foi infinitamente superior a todos os demais candidatos juntos, mesmo não pagando por isso, mas pelo simples fato de ser notícia. Afinal, poderia ser o segundo candidato a perder a vida nas últimas duas eleições.

Não foram seus vídeos caseiros que o levaram a vitória. Ajudaram, sim, mas não foi por causa deles que ele saiu vencedor. Não vale esfaquear a comunicação por causa disso. Uma pessoa não vai comprar um carro porque pegou um panfleto na esquina, antes de chegar à concessionária. Esse foi mais um estímulo que se somou a todo o esforço planejado, arquitetado, construído pela comunicação para fazer com que se desperte o desejo, a vontade e a necessidade de se tomar uma atitude.

É assim que funciona essa ciência tão incerta e com tantas variáveis que é a comunicação. Não vale condenar uma facada com outra. E quem ainda sofre nas entranhas, com facadas desferidas por total ignorância, pode matar quem tem caminhos e estratégias para se achar um modo de viver saudável e cheio de energia.

Vida longa à comunicação. Vida próspera à publicidade.

Max Alexandre Rathke é publicitário e supervisor-executivo do Sindicato das Agências de Propaganda do Rio Grande do Sul (Sinapro-RS).

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