O Caminho mais fácil das teclas

Por Marcos Linhares Em brilhante análise, o jornalista Alberto Dines, do site Observatório da Imprensa, externa o que inquieta àqueles que ainda ousam e …

Por Marcos Linhares
Em brilhante análise, o jornalista Alberto Dines, do site Observatório da Imprensa, externa o que inquieta àqueles que ainda ousam e teimam em pensar nas mudanças ocorridas na imprensa brasileira nos últimos anos.
Agiganta-se, paradoxalmente, a desinformação e a pressa em "desovar" determinado assunto, que acaba criando uma falácia injustificável de se imiscuir o compromisso com a verdade e a apuração dos fatos.
Em recente entrevista feita por este reles aprendiz de escriba ao âncora Boris Casoy, esse destila sua inquietação relativa ao desapego dos "produtores de informação" com ela própria. Segundo Boris, quem produz não tem consumido informação. E a água da apuração de fontes parece estar se poluindo num misto de preguiça e comodismo de remexer nos elementos constitutivos da notícia.
A suposição e o boato, aliados a pretensa necessidade de se revelar o fato em tempo "real", realmente têm comprometido a veracidade e tornam a noticia o mais perecível possível. Ha uma ré - volução, uma volta aos mexericos, pois supõe-se que o povo quer consumir o produto notícia mais próxima do entretenimento e de qualquer coisa que não lhes faça relembrar da vidinha mais ou menos que convive com um salário miserável, constante aumento de tarifas públicas e dificuldades como o racionamento da energia elétrica.
Consumir o escândalo Gloria Trevi dá Ibope mais pelas curvas da polêmica cantora latina do que pelo deplorável fato de que a Policia de elite brasileira tenta acobertar algo, no mínimo, decepcionante para o pais, que é a sua falta de proteção a quem deveria tê-la, quando sob guarda de tal instituição.
Vivemos a era dos escândalos dignos dos tablóides sensacionalistas ingleses, dos paparazzi, na qual bundas "Carla Pereanas", reinos mitificantes da Princesa XAXA (neo Xuxa), aliados ao consórcio de diplomas, nos quais se tornaram os cursos superiores, o de jornalismo em questão, levam a um esvaziamento da concepção do conceito de cobertura. Cobrir o sol com a peneira acaba sendo mais rápido. Que se danem os escassos raios que penetrarem nosso espaço. Afinal, sair na frente é o que conta.
Vem ai o Big Brother Brasil. Alguma dúvida sobre qual pauta vai nortear as redações durante um interminável período? Perfil de participantes, vida em família, análises das mais diversas sobre a participação de cada um. Santa Paciência!
A morte de Cássia Eller é apenas um prenúncio do que nos aguarda em 2002. Editores acendendo vela para novos seqüestros bombásticos à la Cruvinel. Quiçás novos apresentadores de tv com sérios problemas de saúde e eternas brigas pelos direitos autorais do voyeurismo na tv.
Recentemente, li um livro do bom jornalista do Estadão, Roldão Serra, intitulado Dias de Ira; nele o autor percorre o caminho de um serial killer brasileiro que matava supostamente apenas homossexuais em São Paulo. Perscruta-se na obra a perseguição aos gays numa época de aparecimento dos primeiros casos de Aids no Brasil. Daí a conclusão mais que óbvia de que Gays dão Ibope. Polêmicos, engraçados, articulados e de verve abundante, eles ajudam a vender jornais e mantêm o interesse da audiência.
Muitas hipóteses ainda devem rolar por baixo da ponte da memória, já maculada, de nossa cantora brasiliense. Até que nova celebridade apareça e coloque o caso em "stand by". De primeira página, Cássia vai para as notas e depois disputará vaga nas gavetas de pautas frias à espera de uma luz que as esquente.
Como certa vez me disse o professor-autor do livro Senso Crítico, David Carraher, no Brasil estamos correndo o risco da era da banalização do pensamento. Afinal, pensar dá trabalho, e é, em primeira analise, chato e cansativo.
* Marcos Linhares é jornalista e escritor, autor de, entre outros livros, A Sedução da Alma
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