O desafio de comunicar no Direito

Por Fernando Levinski, para Coletiva.net

Em quase 10 anos de profissão, assumir a função de assessor de imprensa de um escritório de advocacia fugiu completamente do meu planejamento de carreira. A surpresa foi, ao assumir o cargo, descobrir que a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) impõe uma série de normas em seu Código de Ética voltadas para a publicidade profissional.

No período em que fiz a comunicação de um escritório em Caxias do Sul, não tomei conhecimento de outro empreendimento da área que tivesse feito um investimento para contar com assessor de imprensa. Por isso, ressalto que poucos são aqueles que reconhecem a importância de comunicar com qualidade.

A linguagem direta, ou seja, inserções do tipo "se você precisa de ajuda no Direito de Família, nós podemos te ajudar!" é o principal ponto proibido no código da OAB, mais especificamente no capítulo VIII, "da publicidade profissional". Pois bem, então como mostrar o que o escritório tem a oferecer? A principal resposta é: um blog!

Muitos escritórios possuem uma plataforma dessas. Entretanto, são raros aqueles que produzem conteúdo próprio, por isso, acabam copiando reportagens divulgadas em sites oficiais (STF, STJ, entre outros). Para quem compreende a importância de uma comunicação profissional qualificada, o que é produzido tem potencial enorme de atingir possíveis clientes. O escritório fala de Direito Trabalhista? Produza um texto sobre a reforma. Planos de saúde? Peça orientações para fazer um artigo sobre reajustes abusivos.

Entretanto, deixo aqui meu alerta: ser orientado por um advogado não basta para o conteúdo final ser claro e objetivo. O "juridiquês", mais do que nunca, precisa ser simplificado para que, como dizia o saudoso Ricardo Boechat, a "Dona Juventina e Seu Adamastor" possam entender.

E como não ser apenas mais um blog? Durante os meses que ocupei esta função, o blog que atualizava ganhou notoriedade por analisar questões que geraram polêmica na cidade. Por ser um veículo segmentado, foi possível fugir da simples cobertura do fato. Naturalmente, com embasamento de um advogado, foi possível a análise jurídica da situação e, quando foi o caso, informar direitos e deveres dos envolvidos na situação.

Fornecer essas análises para a imprensa tornou o escritório uma opção a ser lembrada dentro dos veículos de comunicação. Um conteúdo desta natureza é um complemento para as coberturas usuais. Afinal de contas, possibilita ao repórter diversificar a abordagem com informações que, geralmente, fogem do conhecimento da profissão.

Sobre a produção de artigos, uma das dificuldades que o jornalista com certeza vai enfrentar é compreender de maneira clara os conteúdos divulgados em sentenças ou acórdãos (aqui apenas um dos vários termos da profissão) dos julgamentos. Estes documentos contêm divisões específicas, como ementa, relatório, menções a jurisprudência, entre outras situações.

Não posso afirmar quanto tempo um estudante de Direito leva para ter a compreensão de tudo isso. Mas, para um jornalista que teve o primeiro contato mais íntimo com a área, o desafio é enorme. Neste ponto, é imprescindível contar sempre com o apoio de um advogado para poder compreender o tema que será discutido.

Mas, reforço o que já disse: não esqueça de sempre simplificar termos e situações. O Direito carrega quase sempre jargões e termos muito técnicos (latim, latim e latim). Caminhando junto com esta simplificação, reforçar dentro do escritório a importância de facilitar o texto também é interessante, pois, para o advogado os termos jurídicos são inerentes à rotina do trabalho.

Por fim, destaco que esse é um mercado ainda pouco explorado. Entretanto, a produção de conteúdos relevantes (e próprios) precisa contar com a parceria do advogado. Sem isso, o jornalista terá que contar com uma formação específica em Direito, ou ser um consumidor voraz deste tipo de informação.

Fernando Levinski é jornalista, especialista em Jornalismo Esportivo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Possui experiência em assessoria de comunicação, rádio e jornal. Atuou por nove meses como assessor de imprensa de um escritório de advocacia em Caxias do Sul.

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