O legado de Hipólito

Por Antônio Goulart

A Semana da Imprensa, que se encerra nesta sexta-feira, 7, tem como figura central Hipólito José da Costa (1774-1823), com seu Correio Braziliense, símbolos mais antigos, entre nós, da liberdade de expressão. O que nos leva a algumas reflexões sobre o Jornalismo. Não restam dúvidas de que o Jornalismo praticado atualmente está muito distante daquele usado por Hipólito, mais de duzentos anos atrás. Distante, não só no tempo, mas também quanto à forma, ao conteúdo e à técnica. A essência (tendo em vista o seu objetivo básico, o de ser o intérprete da sociedade), porém, não sofreu alterações. O patrono da imprensa brasileira, um quase gaúcho, nascido em Colônia do Sacramento, hoje território uruguaio, às margens do Rio da Prata, foi um pioneiro, um desbravador, um aventureiro, à sua maneira. Graças a ele, o Brasil entrou na Era do Jornalismo, segundo o estudioso Alberto Dines (1932-2018).

Isto se deu em 1808, quando Hipólito, preso em Portugal, por ordem do Santo Ofício (por ser maçom), exilou-se na Inglaterra. Lá, fundou o periódico Correio Braziliense, no dia 1º de junho, data que o Brasil oficializou como o Dia Nacional da Imprensa. Foi um jornal nascido no exílio, elaborado de forma solitária. Hipólito atuava como redator, editor e revisor. Chegava ao Brasil clandestinamente por navio e assim também era lido por aqui, burlando o rígido controle da Coroa lusa que havia proibido qualquer divulgação de veículo impresso.

O Correio Braziliense sobreviveu por quase 15 anos, até 1822, com um total de 175 edições. Saía mensalmente, em forma de fascículos, alguns com mais de 100 páginas, nas dimensões menores que uma folha A4.  Entre suas bandeiras figuravam a luta pela independência do Brasil e o combate ao regime escravagista. Dedicava também espaço a assuntos internacionais e literários. Era um jornal sem manchetes, praticamente sem notícias da atualidade. Desenvolvia um jornalismo analítico, interpretativo.

Hipólito da Costa foi um homem de ampla visão política, um humanista, liberal e cosmopolita. Pautou-se sempre pela independência de pensamento, pela integridade moral, pela liberdade de expressão, pelo compromisso com a verdade e com a história. Este legado, sem dúvida, permanece até hoje, como farol a iluminar os caminhos do autêntico jornalismo. 

Antônio Goulart é jornalista e diretor cultural da Associação Riograndense de Imprensa (ARI).

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