O risco da retrotopia

Por Fabio Berti, para Coletiva.net

Nem mesmo o ritmo cotidiano em uma redação de veículo de comunicação, acelerado pelo desafio de divulgar notícias em primeira mão nas diferentes plataformas, pode nos abster de reflexões permanentes sobre nossa função social. Refiro-me a nós, da imprensa. Já que a sociedade - ou grupos de interesse que a integram - o fazem a todo o momento, principalmente com viés de julgamento. Ao comemorarmos o Dia da Imprensa nesse 1º de junho, aludindo ao primeiro jornal brasileiro produzido pelo gaúcho Hipólito José da Costa, a pauta do dia é refletir sobre nossa missão na atualidade.

Claramente, dois são os pontos que demandam maior atenção no Brasil. O poder aniquilador das fake news e a ameaça já explícita à liberdade de expressão. Começando pela disseminação alucinante de informações falsas, especialmente por meio das redes sociais digitais, é nosso dever nos voltarmos à essência da prática jornalística: a técnica e a ética. A circulação de informações distorcidas serve apenas aos interesses de quem percebe na manipulação oportunidade de ascender. O jornalismo, feito a partir de fontes confiáveis, investigação e espaço para o contraditório, é o antídoto para um mal que se apresenta capaz de nos conduzir à "retrotopia". O que, segundo o filósofo e sociólogo Zygmunt Bauman, significa regressar a um passado mitificado, que nunca existiu realmente, do qual se selecionam apenas algumas partes, numa replicação mais imaginária do que real.

Uma das evidências é justamente a contestação à liberdade de expressão, tanto em atos do governo central, quanto no apoio a essas práticas disseminado especialmente nas redes sociais. Nem a autocensura, que voltou a alguns veículos de comunicação dependentes de verbas públicas, é tão ameaçadora quanto discursos e atitudes estapafúrdias de integrantes do governo federal. O veto a instituições públicas de ensino superior informarem suas comunidades acadêmicas em suas páginas na internet, a agressão verbal a jornalistas no exercício da profissão e as críticas sistemáticas a veículos de comunicação são referências.

Historicamente, nosso trabalho enfrenta a resistência de governos, de instituições públicas e de segmentos sociais cujo interesse é evitar a criticidade na população. Afinal, um cidadão bem informado é capaz de opinar, debater, influenciar e até votar conscientemente. Nós, jornalistas, precisamos estar atentos aos movimentos da sociedade antes mesmo dos movimentos tecnológicos. Devemos seguir relatando a verdade, como forma de contribuir com uma sociedade mais justa, inclusiva e, sobretudo, livre.

Fabio Berti é jornalista, doutor em Educação em Ciências pela Ufrgs, e coordenador dos cursos de Jornalismo, Publicidade e Propaganda e Turismo do IPA.

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