Pai, quero um livro!

Por Cassio Peres, para Coletiva.net

O pedido entusiasmado da minha filha, de nove anos, na data do aniversário dela, foi motivo de lágrimas nos meus olhos.

Minha filha pediu de presente um livro?

Em tempos digitais, Helena quer um livro? Estávamos no corredor de um shopping de Porto Alegre quando escutei tal "ária", que soou magistralmente em meus ouvidos. Apressado, corri efusivamente com ela para a primeira livraria à minha frente.

Entramos. Eu, sorridente, esperando a obra que ela escolheria (achando que iria encontrar algo tipo Coleção Vagalume) e, para a minha surpresa, não era bem um livro que ela desejava. Sim, até era, mas na verdade era um subproduto de um canal do YouTube. Um canal com duas irmãs gêmeas supersimpáticas que falam de quê??? Brincadeiras! Sim, fui assistir ao canal que deu origem ao "livro".

Na hora, tentei realizar um diagnóstico técnico (25 anos trabalhando como jornalista em TV) sobre aquela produção e não entendi como ela gostava de tudo aquilo. Tecnicamente? Terrível!

Mas quem define o que é bom tecnicamente? Quem diz isso para uma criança? E mais, qual o gatilho emocional que torna aquele produto um canal com mais de 10 milhões de inscritos? Compreendi que existia algo precioso naquele material, algo que muitos canais de TV estão esquecendo ou não estão entendendo como alcançar: diálogo! Mas um diálogo com o idioma digital, que ainda não é compreendido na sua totalidade.

É uma dicotomia tanto de visão como de criação. Eis a grande dificuldade. O problema não é exibir algo com roupagem de "redes sociais", é entender que TV e vídeos para outras plataformas não convergem em um primeiro momento. Seria algo como futsal e futebol de campo - ambos os esportes possuem bola, ambos têm jogadores que atuam com os pés, mas o esporte não é o mesmo.

Não é à toa que, nos últimos três anos, as principais emissoras do País tiveram uma queda de 30% nas receitas, e parte disso foi para a internet, leia-se YouTube e Facebook. Depoimento esse de um alto executivo do SBT em entrevista à Folha de S.Paulo.

Os caminhos a seguir são incertos, mas algumas pistas surgem ali na frente. Existe uma redoma entre dois mundos que ainda não se conhecem, até se observam, tentam criar pontes, mas um não consegue encostar no outro. Talvez a solução não seja romper essa redoma e realizar o encontro - a convergência das mídias que tanto sonhei nas aulas da professora Cristiane Finger, ainda na década de 1990. Mas, sim, descortinar velhos conceitos e padrões, assistindo às gêmeas do YouTube, mesmo tendo estudado jornalismo e TV durante tanto tempo. Moral da história: Helena em segundos desistiu do livro e escolheu um slime. Pais, procurem o que é isso. Também um subproduto do YouTube. Enfim, não escapei do YouTube.

Cássio Peres é jornalista e gerente de Programação da RDC TV.

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