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A ânsia por audiência e o pouco compromisso com a verdade

Por Iraguassu Farias
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Quem trabalha com informação sabe: quanto mais bombástico o título ou a matéria, mais interesse desperta, seja no cuidadoso, seja no incauto. Muito difícil deixar de ser massa de manobra. Em regimes totalitários, só uma versão impera. Em regimes malucos, idem.

Em regimes mais flexíveis, mais ou menos democráticos, o risco, por não ter limites e em nome da liberdade, fica um tanto difícil separar o joio do trigo. E aqui me refiro à verdade, à meia verdade (ou meia mentira) e à mentira mesmo.

Evidentemente, na ausência do pluralismo ou mesmo no caminho irritante do dualismo para onde nos encaminhamos, a verdade é muitas vezes absolutamente distorcida. Nós nos enganamos de juízos feitos, mas ficamos furiosos quando somos enganados, quando nos informam errado, quando nos transmitem notícias falsas ou algo do gênero.

No mais das vezes, a ideologia é o vetor determinante: sou contra, sou a favor. E aí não importa se há um que dê verdade no que propago, desde que, ou incense alguém que me interessa, ou destruo a reputação de quem odeio. Valer dizer que veículos de Comunicação nas mãos de irresponsáveis ou mal intencionados, é um perigo. Tome-se o exemplo da Isto É. Se tempos atrás o surgimento da Editora Três era saudada como contraponto a outro título hegemônico, na edição desta semana parece que enlouqueceram. Trazem na capa uma matéria tida pelo mercado como absolutamente inverossímil, exatamente pelas evidências fartamente disponíveis num Google de que o personagem central não passa de um possível farsante – com indícios fortes de debilidade mental. O tal “químico” não formado, contratado pelas Forças Armadas para projetos de nanoteconologia, e que desenvolveu mosquitos (isto mesmo) livres de Zika e Dengue, estes projetos do PT para dizimar a população.

Inegável a editora estar à procura de duas coisas: vendagem e guerra ideológica (será mesmo?). Talvez a segunda seja eufemismo para verbas oficiais.

Mas eu queria mesmo era falar da propulsão de “fake news”. Desta busca de visibilidade, de quantidade de views, de audiência, de leads. Grandes marcas no mundo digital parecem, e digo parecem, apenas relevar o antigo cuidado com a associação da imagem a quase nada. Desde que seja garantido pelo rastreamento dos dados do perfil social, de consumo, de renda, de região, etc, assegure o atingimento do target desejado. A pergunta que fica é: e o compromisso com o conteúdo do veículo? Poderia aqui lembrar o episódio acima, da Isto É (que já chama de “Quanto É”), mas me centrarei noutro, apenas para exemplo: um tal de Jornal do País. Poderia ser Pensa Brasil, Brasil Digital, ou outros. Mas naquele que alardeou:” Papa Francisco nega a existência de inferno e diz que Adão e Eva são uma farsa”. E coloca uma foto de Francisco e seu belo sorriso. Pronto. Tá feito. Dê-lhe cliques, compartilhamentos, Facebook, Twiter e tudo o mais.

Até seria bacana se ele tivesse mesmo dito isto, e nem importa a matriz religiosa de quem acredita ou não, mas não disse. Ou “Bomba! Família de Cunha está à beira da pobreza”. Bem, justa ou injusta esta situação, não é verdade, todos sabemos.

O engendramento da “quantidade de cliques” está profissionalizado. Reportagem da Folha de SP foi a fundo. E descobriu, no interior de Minas Gerais, gente que vive disto: associa notícias falsas, preferencialmente a pessoas de referência, que se constituem em chamariz, para gerar tráfego, para impulsionar visitação. E serem por isto remuneradas. E quando estoura, quando alguém ameaça ou mesmo processa, fecha um domínio e abre outro. E joga no www.

Curioso, vi agora há pouco nesta tal de Jornal do País, um anúncio, veja só, da Microsoft. E o tal é recheado de notícias sensacionalistas, mas falsas. Já soube de marcas sérias em portais com conteúdo erótico. Admitamos: ambas marcas devem estar sendo expostas para um sem-número de pessoas, atraídas pelo falso e pelo politicamente incorreto. Mas gerou cliques. E gerou renda.

Cá pra nós: que desconforto é saber que mentirosos, levianos, safados ganham uma fortuna em cima do engodo. E olha que não falo de políticos e pastores.

Iraguassu Farias é sócio-diretor do portal Coletiva.net, respondendo pela área Comercial e de Relacionamento.

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