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Comunicação como ferramenta de empoderamento feminino

Por Janaína Marques
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Ser jornalista veio antes de me descobrir feminista. O jornalismo foi fácil,  aos sete anos eu já gostava de entrevistar os parentes nos almoços de família e achava Lois Lane muito mais interessante do que o Super Man. O feminismo veio aos poucos, primeiro entendi que não havia igualdade entre mim e os meus amigos do sexo masculino. Fora da escola, era assediada por homens na rua e sabia que tinha algo estranho ali. Eu só tinha onze anos e muita vontade de escrever sobre isso.  A comunicação e o feminismo têm algo em comum: ambos conseguem transformar a realidade.

Na faculdade, somos apresentados a discussões complexas sobre ética e valores noticiosos, o que nos faz questionar por que boa parte dos canais da mídia não os aplica. Muito do que nos oferecem para assistir, ler, ouvir não contempla as classes desfavorecidas e assume uma imparcialidade discutível. Afinal, resumiu bem Desmond Tutu, Nobel da Paz:” Se você é neutro em situações de injustiça, você escolhe o lado do opressor”. Não apontar o machismo em casos de feminicídio é negar que exista a violência de gênero. Essa postura de alguns veículos poda o trabalho de  repórteres que gostariam de ter mais espaço para aprofundar questões sociais relevantes. Os meios noticiosos não devem ser máquinas de propagar o senso comum. Existe racismo, homofobia e pessoas que sofrem com isso. Quando a redação escolher ser cega a estes problemas, os fortalece.

A cultura do estupro não começa nem termina na violência sexual. Há muitos pontos a serem abordados em uma matéria sobre este tipo de crime. Nenhum deles é o que a vítima estava vestindo quando foi atacada. Há décadas de estudos feministas sobre a violência doméstica e indagações  sobre por que tantas mulheres vivem com  parceiros que as agridem. Muitas não sabem que não têm culpa da violência que sofrem. Nós, jornalistas feministas, temos a obrigação de informá-las disso.

As redes sociais, o empreendedorismo e um pouco de indignação permitem a existência de vários projetos de mídia independente, mostrando que o público não têm preguiça de se informar, mas busca algo que o represente. Eu e outra colega idealizamos o Canal Feminista no final do ano passado, com a proposta de abordar pautas que não possuíam o destaque merecido na mídia tradicional e dar espaço a grupos marginalizados, que têm suas reivindicações diminuídas a notas de rodapé.  É um projeto de mídia independente, feito  por jornalistas com vontade de contar histórias incríveis. Queremos alcançar a essência  da reportagem: fazer a diferença.

A comunicação é uma potência de  disseminar conhecimento e, consequentemente, empoderamento social. Para assegurar os direitos das mulheres num país em que treze são assassinadas por parceiros diariamente, uma matéria não basta, mas a informação é um começo. As pessoas precisam saber disso. Nenhum foca  entra na faculdade para fazer pautas medíocres nem afundar o dedo na ferida dos personagens. A gente quer mesmo é mudar o mundo.  Alcançar uma mulher em situação de violência é mudar o mundo. Dar voz a uma faxineira abusada pelos patrões é chacoalhar o universo. Espero que, em alguns anos, a gente não precise contar nos dedos quantas repórteres negras estão na TV ou quantas lésbicas ocupam cargos políticos. Que os que vivem abaixo da linha da pobreza não sejam milhões, tenham rosto e tenham voz por meio do jornalismo.

Janaína Marques é jornalista e criadora do Canal Feminista.

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