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Pesquisar e resistir

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Nós, mulheres, lutamos por direitos iguais, legitimidade e respeito em todas as esferas da sociedade. Embora já tenhamos notado diversos avanços, o dia a dia nos mostra que ainda há um longo caminho a ser percorrido. O campo acadêmico não é diferente: o machismo ecoa – ora sutil, ora evidente – pelos corredores das universidades. A boa notícia é que, por meio da pesquisa, também podemos dar nossa contribuição, seja conduzindo estudos em relação a gênero, seja expandindo a bibliografia da área da Comunicação e iluminando aspectos desconhecidos da história ou problematizando questões do presente.

Como mestranda, observo alguns fatos que evidenciam a disparidade que ainda existe. Por exemplo, pesquiso História do Jornalismo e constatei, ao reunir boa parte da minha bibliografia, que praticamente todas as obras que utilizo foram escritas por homens. Historicamente, é compreensível: as mulheres eram minoria nas universidades e, quando conseguiam fazer uma graduação, dificilmente se encaminhavam para um mestrado ou doutorado. As próprias redações de jornais, por exemplo, na década de 1970 eram majoritariamente masculinas. Raras eram as mulheres que se aventuravam na vida de repórter, o que, felizmente, já mudou.

Os programas de pós-graduação em Comunicação também são, atualmente, em sua maioria, compostos por mais mulheres do que homens. As pesquisas sobre gênero crescem na mesma proporção, o que é de se comemorar, uma vez que o conhecimento das desigualdades que persistem é o melhor caminho para buscarmos sanar as diferenças de oportunidades e de tratamento.

Como jornalista ávida por dados para embasar os textos, revirei a internet atrás de números para mostrar o aumento da presença feminina na pesquisa em Comunicação e a elevação dos trabalhos sobre gênero, mas, infelizmente, os dados que encontrei são muito antigos. Em 2002, por exemplo, o VI Colóquio Internacional sobre a Escola Latino-Americana de Comunicação (Celacom) teve como tema central “A participação da mulher nos estudos comunicacionais latino-americanos”. Os números apresentados no evento indicaram que a participação feminina nos estudos sobre Comunicação foi maior na produção de teses e de dissertações, embora a publicação de livros e de artigos fosse menor, em comparação à produção masculina. A própria falta de dados sobre a participação da mulher nos programas de pós-graduação em Comunicação aponta a uma pesquisa interessante, visto que o cenário se alterou bastante em 15 anos.

Para não escrever este artigo embasada somente em percepções pessoais, conversei com pesquisadoras e colegas que também fazem mestrado e doutorado. As respostas foram parecidas: muitas nunca vivenciaram um caso evidente de machismo durante as aulas, em congressos ou na atuação profissional, mas se queixam de piadas, comentários e alguns episódios, sempre sutis, que mostram que a luta ainda deve ser levada adiante, até podermos falar de igualdade plena de direitos entre homens e mulheres.

Quando o preconceito não aparece em sala de aula ou dentro da universidade, ele se mostra nas pesquisas de campo, ao lidarmos com pessoas fora do convívio universitário. É como se, pelo fato de sermos mulheres, precisássemos provar, muito mais do que um homem, nossa capacidade intelectual. Outro ponto nevrálgico é a maternidade. O impacto de ser mãe na vida de uma pesquisadora é alto. A pressão por publicações acadêmicas, aliada às tarefas que uma mulher ainda “deve” desempenhar em casa, torna a profissão mais estressante do que já é por si só.

Os entraves remanescentes dizem respeito, portanto, à legitimidade de nossa atuação. O machismo ressoa dentro e fora do ambiente acadêmico, como um espelho do que ainda precisamos conquistar – sem esquecer, é claro, que o próprio fato de seguirmos estudando e pesquisando é um avanço, algo inimaginável anos atrás.

Através da pesquisa, das críticas e dos questionamentos que se fazem no ambiente acadêmico desenvolvemos e aprimoramos nossa área. Ali, temos a possibilidade de problematizar as propagandas que objetificam a mulher e sugerir caminhos para que as demais sejam menos ofensivas. Podemos, ainda, desvelar como as reportagens estigmatizam o público feminino – seja em qual editoria for –, bem como refletir sobre as condições de trabalho da mulher nas empresas de comunicação e uma infinidade de temas importantes que nos colocam no centro do debate. E, mesmo que o assunto da pesquisa não tenha a ver diretamente com gênero, o fato de estarmos inseridas num programa de pós-graduação já é um passo essencial. Quem sabe, daqui a alguns anos, a bibliografia sobre História do Jornalismo, por exemplo, esteja mais equiparada entre homens e mulheres.

Desejo que a cada 8 de março possamos comemorar, cada vez mais, as nossas conquistas e que sigamos incentivando umas às outras a seguirmos em frente – melhor ainda quando isso pode ser feito por meio da nossa atuação profissional, seja como pesquisadoras, jornalistas, publicitárias ou relações-públicas. Seguiremos, juntas, na luta, dentro e fora das universidades, independente da data.

Cândida Schaedler é jornalista e mestranda em Comunicação Social na PUC.