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O parque temático do jornalismo

Por Elstor Hanzen
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Há poucos dias um jornalista comentou nas redes sociais sobre a modernização da mídia diante da concorrência do jornalismo online. Escreveu: os veículos não podem deixar de se atualizarem na parte tecnológica e na sua linguagem. Ora, quanto a esses aspectos a maioria – do rádio do interior ao cinema de Hollywood – tem conseguido acompanhar a tendência. O desafio, entretanto, tem sido separar o joio do trigo em meio à avalanche de dados e extrair dali conteúdo relevante, para produzir uma notícia segura e capaz de dar conta da complexidade social.

Tal complexidade significa não reduzir os assuntos de forma binária entre amor ou ódio, felicidade ou tristeza, bem ou mal, enfim, polarização tão presente nas discussões das redes sociais. Aliás, aqui convém estabelecer um paralelo com o seriado de ficção científica que estreou no final de 2016: Westworld. “A evolução da tecnologia sempre é mais fácil do que a engenharia humana” avisa o personagem Robert Ford (Hopkins), que comanda o laboratório de reprodução humana na série.

A história se passa num parque tecnológico avançado e é inspirado no Velho Oeste. O lugar é habitado por robôs, chamados de anfitriões, os quais são criados por programadores. Os robôs não têm memória nem autoconsciência, com o objetivo de serem facilmente manipuláveis e não terem autonomia total e independência para decidirem suas vidas. Embora os responsáveis pelo projeto desejam que eles possuam e manifestam o mais sublime dos sentimentos humanos, para parecem tão “reais” como os próprios humanos, aos olhos dos que visitam o parque. Mas os anfitriões acabam tendo só emoções mais simples: medo, raiva, alegria, surpresa.

Em outras palavras, que se assemelham aos humanos, mas não tenham a mesma diversidade e complexidade. Com efeito, o jornalismo parece ter a mesma visão do seu público. Isto é, não se interessa mais em oferecer um conteúdo informativo elaborado – a reportagem – nem estabelecer um nexo histórico nas notícias servidas, tudo vem fragmentado e o sujeito fica num estado de amnésia. Ou como lembra Robert, no seriado: “Apagar a história e a memória, ajuda a se livrar das lembranças e do senso crítico”.

As redações parecem também mergulhadas numa espécie de parque temático, cujo público é visto como robô e deve se contentar com os frangalhos e as informações parciais que recebe, sem ter apreço pela diversidade das manifestações do mundo nem pela complexidade da própria condição humana. Após consumir tais notícias, querem que sejamos como os anfitriões de Westworld, ou tão previsíveis como os filmes de Hollywood e obedientes como cordeiros, diante do manual das instruções noticiosas.

A propósito, esse cenário nos remete à teoria da comunicação criada ainda na metade do século 20, por Claude Shannon – a Teoria da informação ou da matemática. A teoria foi a primeira a considerar comunicação como um problema matemático rigorosamente embasado na estatística e deu aos engenheiros da comunicação um modo de determinar a capacidade de um canal de comunicação em termos de ocorrência de bits. Essa teoria não se preocupa com a semântica dos dados, mas, só se envolve com aspectos relacionados com a perda de informação na compressão, com a transmissão de mensagens e com o ruído no canal, ou seja, apenas se preocupa com a qualidade da transmissão, o meio entre emissor e receptor.

Os robôs “jornalistas”

Não é de hoje que a imprensa mundial vem testando e usando robôs para escrever notícias. A automatização generalizada é feita por software, chamados bots, que tem convertido dados e produzido conteúdo jornalístico muito mais rápido do que o mais ágil profissional da área seria capaz. Na verdade, atualmente, a maior parte das histórias que lemos na Internet é escrita por máquinas. Estas máquinas da notícia até já atuaram em grandes eventos internacionais, como na Copa do Mundo no Brasil, em 2014.

Os robôs são, na realidade, programas informáticos que um humano alimenta de dados para que eles gerem automaticamente a informação, semelhante aos anfitriões humanos que habitam o parque de Westworld. No jornalismo, a técnica pode ser usada em informações que não necessitam de análise e contextualização, porque se nutrem principalmente de dados, como os resultados de eleições ou de eventos esportivos.

Na perspectiva de James T. Hamilton, diretor de jornalismo em Stanford e economista pela Universidade Harvard, a fartura e a facilidade de acesso aos dados devem servir para aprofundar o jornalismo investigativo e ampliar a análise das informações, não para substituir o trabalho do jornalista e deixar as notícias todas iguais e superficiais. ”Por um lado, conforme você tiver mais acesso a dados, poderá identificar padrões e descobrir onde se aprofundar na investigação. Acredito que, no fim das contas, as organizações que vão sobreviver serão aquelas que descobrirem como oferecer uma informação diferente da informação que todos os outros estão oferecendo”, afirmou à Folha, em entrevista publicada em janeiro deste ano.

Hamilton também alerta sobre o excesso e a desinformação nas redes sociais. Segundo ele, esta corrida frenética provoca um isolamento e desorientação do indivíduo, ao Invés do efeito contrário; ademais, a verdade sai perdendo neste contexto. O lado positivo, pondera o diretor da Stanford, poderá estar no fato que muitas pessoas estão preocupadas e buscam responder a isso. “Sou otimista no sentido de que as pessoas agora sabem que isso é um problema, e que estão buscando manter os poderes sob vigilância”.

Assim, o momento não é de robotizar e imprimir mais velocidade na confecção das notícias, conforme sugerem muitos gurus da moda. Todavia, é preciso ir além do parque tecnólogo e adotar uma postura capaz de humanizar e contextualizar melhor os relatos jornalísticos. Acrescido a isso, é fundamental interpretar e analisar as informações com coerência e honestidade, a fim de servir um conteúdo relevante e livre do joio para o cidadão. Tal caminho, inclusive, poderá ser um diferencial para a mídia sair da crise e recuperar sua credibilidade com o público.

Elstor Hanzen é jornalista e especialista em convergência de mídias.

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