Ainda nesse ano, você vai odiar os bots

Por Billy Garcia

Em 2018 tenho uma única certeza: na era dos dados, existe um gráfico para representar qualquer coisa que você possa imaginar.

Existe um, inclusive, para predizer que ainda esse ano você estará odiando os bots e chatbots.

Ele se chama Ciclo do Hype de Gartner.

Para quem não está muito envolvido com conceitos tecnológicos, o Ciclo do Hype de Gartner serve para graficar a timeline mais ou menos recorrente na adoção de novas tecnologias. O gráfico utiliza nomes dramáticos como Pico das Expectativas Infladas, Vale da Desilusão e Ladeira do Encantamento para demonstrar como, antes de nos tornarmos hábeis com uma nova tecnologia, vamos utilizá-la de várias maneiras estúpidas.

A grosso modo, é o conceito da Jornada do Herói aplicada à "vida" de um software, plataforma ou gadget, e mesmo os chatbots desenvolvidos com algum nível de inteligência artificial não são espertos o bastante para fugir a regra.

(...)

Ao que tudo indica e baseado no histórico de eventos relacionados, por exemplo, ao episódio do fechamento da exposição Queer Museu quando parte das postagens de apoio ao fechamento da exposição foi feita ou divulgada por robôs, 2018 deve ser o ano em que os chatbots estarão mais ligados a manchetes de fake news que atendimento automatizado.

"A desinformação, o jornalismo desonesto, a propaganda e o exército de trolls são uma ameaça ao mundo moderno."

A chamada da matéria no Estadão dessa semana não me deixa mentir ou exagerar: o país onde chatbot farms e técnicas de propaganda são capazes de influenciar as eleições de outro país está fazendo escola. Por aqui, inclusive.

Nos EUA, os bots trabalharam em desacreditar as eleições, criando caos e ajudando a colocar Trump no poder.

No Brasil, o terceiro maior país em número de usuários no Facebook e a poucos meses de uma das mais importantes eleições da sua recente história democrática, o processo eleitoral será profundamente moldado por bots construídos com o intuito de proliferar noticias mentirosas sobre ambos os lados do embate. Porque enfim, quando o assunto é política, aqui não tem santo.

Em 2018 a popularização das ferramentas de desenvolvimento de chatbots aliada a estratégias agressivas de impulso de mídia nas redes sociais mais populares, deverão ser as principais responsáveis pela manipulação do que é verdade ou mentira a respeito do candidato de sua escolha. Seja ele qual for.

É bastante conclusivo salientar que o único comentário na página da matéria, na data, era:

"Graças a Deus e aos que respeitam e valorizam a vida, esta imundice foi cancelada."

Lucio. Um bot.

Interações humanas com a postagem: 26!

(...)

Suspeito que, enquanto você lê esse artigo, em algum lugar do Brasil alguém está prototipando, desenvolvendo ou prestes a receber o briefing de criação de um chatbot para campanha política. Acredite, sei do que estou falando.

(...)

Resumindo.

Rumo a uma das eleições mais sensíveis da história, pós-golpe, com um dos seus candidatos mais icônicos provavelmente impedido de participar do embate eleitoral e uma clara disposição de votarmos em representantes de direita e até extrema direita, o que, certamente, não faltará serão manchetes sobre fake news, bots e chatbots usados de maneira discutível. Em épocas como esta, em que a criação e compartilhamento de notícias falsas tem se mostrado uma funcional ferramenta de desinformação, cada voto consciente pode fazer a diferença.

O jeito é ficar atento ao que você anda lendo e compartilhando na timeline das suas redes sociais, ou seguiremos assim, mais ou menos embalados em direção ao Vale da Desilusão, sem jamais ter nossas Expectativas Infladas e provavelmente exaustos demais para encarar a tal Ladeira do Encantamento.

Check the facts.

Double check the facts.

Billy Garcia é designer de Novos Negócios da agência Escala.

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