Foi sorte

Por Claudia Schroeder, para Coletiva.net

A desigualdade de gênero: este assunto é antigo, embora eu não tenha me deparado tão de frente com ele durante a vida toda.

Nasci menina e convivi com meninas e meninos muito bem. Nunca senti qualquer discriminação na escola. Fui crescendo e comecei a trabalhar cedo. Também não senti qualquer tipo de desrespeito, aos meus 15 anos, no meu primeiro emprego - um jornal no interior do Estado, cercada por homens. Logo entrei no mercado da propaganda. Fui redatora, gerente de Criação (de equipes constituídas por, em sua maioria, homens, remunerados somente de acordo com suas competências, assim como as mulheres) e diretora de Criação (de equipes constituídas por, em sua maioria homens, remunerados somente de acordo com suas competências, assim como as mulheres) e nunca me senti discriminada por ser mulher. Sorte? Estou, realmente, pensando que sim.

Nunca senti que estava ganhando menos do que um homem - me pagavam de modo condizente com meu crescimento na carreira. Sofri mais com preconceito 'enganado' de idade - sempre pensavam que eu era mais nova do que aparentava, mas isso é outro preconceito (para outro artigo, talvez). Nunca me senti frágil profissionalmente pelo que tenho entre as pernas. Uma vez, em uma entrevista, perguntaram como me sentia sendo, na época, a única mulher diretora de criação atuando no mercado. E eu nem tinha percebido este dado. Sorte? Estou, realmente, pensando que sim.

Dos poucos episódios em que percebi preconceito por ser mulher foi quando uma conhecida, que trabalha em RH, me disse: "Se queres seguir tua carreira em empresas, não diga que pretendes ter filhos, não vão te contratar". Nunca tinha ouvido um conselho desses e também - ainda bem - nunca, numa entrevista de emprego, me fizeram este tipo de pergunta. Sorte? Estou, realmente, pensando que sim.

Em casa sempre dividi despesas com quem convivi. Meio a meio. Trabalho tanto quanto o homem - às vezes até mais - e sempre tive como princípio não ser sustentada por alguém. Sorte de ter tido (e ter) companheiros que aceitavam isso? Estou, realmente, pensando que sim.

Agora, com a aproximação dessas assustadoras eleições, alguns candidatos e eleitores dizem ser (ou continuar sendo) justo que mulheres ganhem menos exercendo os mesmos papéis de um homem. Citam isso como se estivessem afirmando que a terra é redonda. Tenho plena consciência de que tive sorte.

A sorte que tive vai ao encontro do senso de igualdade que exerci em minha vida profissional - gênero, raça, posição social, nunca foram questões para mim. A importância de lutar por paridade e inclusão sempre estiveram presentes, e continuam estando. Não é sobre sorte, mas sobre direitos. Tenho certeza de que sim.

Claudia Schroeder é estrategista criativa, diretora de Criação e poeta.

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