Menos deslumbre, mais realismo: qual a comunicação que mais trabalhamos atualmente?

Por Matheus Pannebecker, para Coletiva.net

Recém havia entrado na faculdade quando foi derrubada a obrigatoriedade do diploma para o exercício do Jornalismo. Dali em diante, veio todo tipo de pessimismo, muitos deles prevendo mudanças radicais e imediatas no mercado, mas o que de fato aconteceu foi uma mudança espaçada e gradativa que se estende até os dias de hoje - e que, no final das contas, tem muito mais a ver com a (des)valorização da profissão em si do que necessariamente de seus profissionais, que se tornam inevitáveis consequências dessa circunstância.

Durante o período de seis anos em que já atuei como jornalista e, mais especificamente, como assessor de imprensa até agora, vi, a cada ano, o sucateamento da profissão que escolhi exercer: redações demitindo incontáveis (e renomados) jornalistas, veículos se utilizando da era multimídia não para aprimorar trabalho, mas para canalizar diversas funções em um único profissional, e, no caso da assessoria de imprensa,  enxugamento de espaços na mídia, reduções pontuais de orçamentos solicitados por clientes e um desafio diário cada vez maior de fazer mais com menos para alcançar os propósitos da nossa área.

Paralelo a isso, na medida do possível, sempre tentei participar de encontros, fóruns e debates sobre o mercado da comunicação, que, pelo menos em Porto Alegre, costumam ser realizados com boa frequência e, em sua maioria, com ótimos profissionais e temas pertinentes ao exercício da profissão e suas respectivas fases. Esses eventos são sempre uma linda maneira de oxigenar ideias, processos e relacionamentos, que são a força-motriz do nosso trabalho.

No entanto, entre tantas dessas iniciativas, me escapa à memória qualquer uma que tenha debatido não a chamada crise em si, mas o que podemos fazer em relação a ela em termos práticos e diários do nosso trabalho. O que se vê são eventos que vão, de certa forma, na direção oposta: sim, eles contemplam as transformações técnicas da comunicação (a era digital, a expansão da produção audiovisual para internet, as métricas de redes sociais, etc.), mas quase sempre promovem um panorama idealizado, onde grandes agências/assessorias/redações (nacionais, em diversos casos) trabalham com clientes e eventos de alto escalão, seja no orçamento irrestrito ou nas próprias marcas já amplamente consolidadas e reconhecidas.

Isso é um problema porque cria uma nova geração de jornalistas e publicitários deslumbrados e que saem da área acadêmica acreditando que não há outro caminho a não ser o das possibilidades infinitas e irrestritas de um mercado democraticamente grandioso. Se normalmente já é preciso falar sobre exemplos mais realistas e alternativas para fazer mais com menos, em tempos de crise (do mercado, das profissões, de ideias), é infinitamente mais.

Todos deveriam ter os pés bem firmes no chão desde sempre, em especial quem ainda está na área acadêmica, onde tanto se idealiza o exercício das profissões. Não é cortar o barato nem dar banho de água fria: a busca por alternativas no dia a dia também ensina muito e pode ser tão exemplar quanto as histórias de grandes campanhas e divulgações que se maximizam com um bom orçamento. Afinal, por que não abordar também tópicos como os planos estratégicos, a múltipla e diversificada produção de pautas para os mais variados veículos, a construção de um mailing bem prospectado e a própria relação entre assessorias e redações? Isso ilumina os processos dominantes da comunicação e oferece certa perspectiva de como se dá (ou não) uma divulgação espontânea, que independe de fatores exteriores.

Não me levem a mal, é inspirador ouvir cases de grandes empresas que posicionam grifes e grandes corporações no mercado, remontando a ideia de que a criação deveria ser o fator determinante nos processos de qualquer agência ou assessoria. Mas falar sobre criação é fácil quando as circunstâncias são sempre as ideais, algo que, cada vez mais constatamos, é a realidade de uma mínima fatia dos nossos colegas.

Quando o mercado faz com que agências e assessorias trabalhem com equipe reduzida, começando do zero ou com clientes que, aqui ou ali, pensam duas vezes antes de liberar budget até para patrocinar página no Facebook, o que nos resta é discutir ideias para potencializar as mais básicas das ferramentas e, assim, vencer desafios. É isso o que, em suma, engrandece, o valor da nossa profissão.

Matheus Pannebecker é jornalista, assessor de imprensa e sócio da Pauta - Conexão e Conteúdo.

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