Os bastidores da revisão

Por Luís Augusto Junges Lopes, para Coletiva.net

Neste 28 de março, Dia do Revisor, gostaria de resgatar um episódio quase traumático no início da minha 'carreira' nessa profissão. Lá no começo dos anos 1990, prestei concurso público para atuar na Secretaria de Cultura do Estado. Na prova de Português, embora com um certo domínio das normas da língua culta, deparei-me com a questão: "Identifique o uso de anacoluto nas seguintes alternativas". What? Anacoluto? De onde saiu isso? No chute, acabei errando, mas fiquei com uma vontade imensa de querer saber por que questionar isso pra quem vai trabalhar em um órgão público. Cheguei a pensar, com um quê de ironia: "Quando estiver lá trabalhando e, de fato, encontrar o autêntico uso de anacoluto, seja qual for a situação, ia pedir pra todo mundo ouvir que, finalmente, soube fazer uso dele"!

Com o passar do tempo, já formado em Letras e com uma carreira cambaleante na revisão, descobri que o lado teórico quase pouco ou nada interessa ao 'cliente'. O que se quer ter certeza é se há vírgula, ponto, acento, hífen, concordância verbal, nominal, o uso dos porquês - esse derruba muita gente! -, crase, o eterno duelo entre 'haja vista' x 'haja visto', 'pré-determinado' x 'predeterminado', 'haver' x 'a ver', e, claro, agora as regras da nova ortografia (quem se interessa em saber o que é oração coordenada assindética?). Simples, prático. Como 'Português Prático', a consagrada obra e com várias edições do mestre Paulo Ledur. Além dele, tem ainda o professor Edison de Oliveira, já falecido, que publicou com sucesso o livro 'Todo mundo tem dúvida, inclusive você', o qual também contempla questões práticas para se dar bem com a língua... portuguesa.

Além disso, o cliente quer saber se as tabelas, os gráficos, as legendas, o sumário, as referências bibliográficas, a capa, a contracapa, as orelhas, as notas de rodapé também foram corrigidos. E todo esse trabalho é incansavelmente realizado para que o leitor, ao pegar o exemplar de um livro, de uma revista, sequer perceba que alguém foi contratado pra fazer única e exclusivamente a revisão. É como a produção de uma peça ou de um show: trabalha-se nos bastidores sem parar até o momento em que a cortina do teatro se abre.

Desde quando abri a empresa, focada em revisão de Português, em janeiro de 2006, o trabalho tem sido, felizmente, constante. Há clientes com mais de 18 anos, muito antes de virar microempresário, outros há menos tempo, mas todos sempre fiéis, sendo que vários deles se tornaram grandes amigos. Eles confiam no trabalho, acatam as sugestões, estipulam os prazos, desde que, obviamente, isso não atrapalhe a festa de aniversário de 80 anos de alguma tia no domingo! Aliás, quem quiser exercer essa atividade profissionalmente tem que 'esquecer' sábados, domingos - e até mesmo feriados. Nesse ponto, agradeço a enorme paciência da minha família em ter 'eventualmente' me afastado de seu convívio em função de algum trabalho que deveria ser entregue na segunda-feira até o meio-dia ou, se possível, na primeira hora da manhã!

Além do domínio das normas gramaticais, é de bom alvitre que o postulante ao cargo tenha um razoável conhecimento geral sobre política, esportes, música, teatro, literatura, etc. Ter uma boa base de leitura é critério fundamental para que quando estiver frente a frente com o texto saber, por exemplo, que o autor de 'Incidente em Antares', Erico Verissimo, não leva acento em seu nome (nem o seu filho Luis Fernando Verissimo; Mario Quintana também não) e que a grafia certa do time colorado é Sport Club (e não Clube) Internacional, e que o Grêmio foi fundado em 15 de setembro de 1903, e não em 1913! A propósito da dupla Grenal, revisor não tem time. É fato! Já trabalhei em três livros dedicados à nação colorada: 'Escurinho - No último minuto', de Jones Lopes da Silva; 'Internacional - Gigante para Sempre', de Altair Martins, e 'Sadi - Nosso capitão', de Sadi Schwerdt, com colaboração de Paulo César Teixeira, em que praticamente todos os integrantes das equipes eram colorados, incluindo seus autores, mas o único torcedor do Tricolor era responsável pela revisão, sem que essa sadia rivalidade prejudicasse o bom andamento do trabalho.

Como me formei em Bacharelado em Letras, ou seja, em Tradução de Inglês, cheguei a acalentar o sonho de trabalhar só com tradução. No entanto, o caminho era árduo e cheio de obstáculos. O atalho foi pegar a onda da revisão. Mas eis que a base na língua inglesa me ajudou a descobrir algumas cascavéis escondidas em muitas traduções... O exemplo mais gritante é 'dramatically', que muita gente traduz por 'dramaticamente' e, na verdade, quer dizer 'drasticamente', o que faz por si só uma tremenda diferença. 

Revisar é um aprendizado constante, mesmo que se pense que já tenha dominado o que se pode definir como técnica. Deve-se colaborar o máximo para que o texto em tela, como diz o povo do Direito, seja corrigido, burilado, limpo, claro, conciso, sem repetições nem trechos confusos ou ambíguos. Entretanto, um aviso: o ideal é propor sugestões de uma maneira cordial, sem rigorismos nem ranços acadêmicos. Em outras palavras, a regra é ser flexível. Pois sempre tem um cliente que quer porque quer a vírgula na terceira frase do segundo parágrafo da página 5!

Em meio a quase 800 publicações, entre livros, revistas, informativos que compõem o acervo da empresa - fora o que se encontra no meio digital -, não poderia deixar de citar os erros, meus próprios erros. Sim, alguns escaparam, não me pergunte como (quem os deixou escapar?). Foram apontados pelos clientes - conforme a gravidade, nem aceito o pagamento! -, e outros eu mesmo detectei. É uma situação constrangedora, do tipo 'Para o mundo que eu quero descer'! Felizmente, a maioria deles me ajudou a ter mais atenção nos trabalhos seguintes. Mas confesso que eles costumam, às vezes, ser infernizantes. 

Há alguns anos, um amigo me perguntou, intrigado, quando lhe informei que trabalhava com revisão de Português: "Mas isso dá dinheiro?" Não recordo o que respondi na hora, talvez tenha sorrido e mudado o rumo da prosa. Hoje poderia dizer que talvez não dê pra ficar rico, mas dá pra almoçar fora uma vez por mês e passar cinco dias de férias com a família (não mais que isso!) em Pinheira, em Santa Catarina. Pronto. Falei!

Em tempo: anacoluto é uma figura de linguagem em que se quebra a estrutura sintática de uma frase. Em vez de se dizer "Eu comprei a casa com recursos próprios", diz-se "A casa, eu comprei com recursos próprios". Mudou a sua vida, não é mesmo?

Luís Augusto Junges Lopes é sócio-proprietário da Press Revisão e revisor de Coletiva.net.

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