Pelo fim do umbigo alheio

Por Alexandre Bach, para Coletiva.net

Muitas vezes meu amigo se sentou em frente à minha mesa, final da tarde na redação do Diário Gaúcho, com a angústia estampada no rosto. Poucas horas para fechar a edição de Zero Hora do dia seguinte, onde tinha uma coluna diária, e ele ainda não tinha ideia alguma para escrever. E olha que ele era um jornalista muito acima da média, dos melhores que já andou pelo Rio Grande do Sul.

Não é só escrever - ele me explicava. Primeiro, precisava encontrar um tema que fosse relevante e de interesse das pessoas. Depois, precisava se informar sobre esse tema, ler, conversar com especialistas do assunto, entender a questão. E, por fim, ter uma opinião sobre o tema. Era o relato que me fazia sempre, a cada crise provocada pela ausência de assunto, para explicar o mecanismo de funcionamento do bom e responsável colunista.

Eu tentava ajudar, dando alguns palpites, sugerindo a abordagem de algum fato do dia. Ele me olhava sem dizer nada, levantava da cadeira e se dirigia para a sua redação. Seguia levando sua angústia, mas eu ficava com uma certeza: no dia seguinte, em seu espaço haveria um tema de suma importância para a vida do leitor.

Meu amigo era Paulo Sant?Ana.

Pelo que tenho acompanhado em muitos espaços de opinião, não foi só o Sant?Ana que se foi, mas também a preocupação que deveria ser permanente em todos que, com o a internet, passaram a ser "produtores de conteúdo" e ganharam espaço para opinar em todas as mídias. A preocupação que se deve escrever para o leitor, não para o umbigo.

Hoje, novato que virou dono de espaço de opinião e que vai ao supermercado e é mal atendido no caixa transforma o caso pessoal em uma coluna pública, cheia de críticas ao mau serviço. Se vai à farmácia e não encontra seu remédio, repete a dose. Péssimo serviço de telefonia e banda larga? Mais uma coluna.

É isso que dá termos colunistas demais e sustância (como dizia minha avó preocupada com a pobre alimentação dos netos) intelectual de menos. Há quem acredite que jornalismo é puro estado de arte: se inspira e vai lá escrever. Grande bobagem. Até arte não existe apenas no puro estado da arte. Michelangelo, o melhor de todos, estudou técnica de pintura e aprendeu noções de medicina para juntar as cores e esculpir os corpos que até hoje encantam o mundo.

É essa a minha sugestão aos colunistas de hoje. Não reclame do caixa do supermercado e vá se informar se ele não atendeu mal porque está cansado de tanto trabalhar por conta da reforma trabalhista. Não reclame da falta de remédios e vá estudar a legislação que permite laboratórios produzirem medicamentos mais condizentes com seus negócios do que com a saúde pública. Não reclame da sua operadora e vá se informar sobre a lei que permite às empresas entregarem nas casas uma velocidade de conexão menor do que a contratada. Esqueça seu umbigo. Preencha seu espaço com um conteúdo útil para que as pessoas recebam informações que possam ajudá-las a transformar suas vidas.

Mude o tempero. Menos inspiração e indignação e mais trabalho e suor. Lugar para se lamuriar é na frente da mesa do amigo, e não no espaço público da coluna.

Alexandre Bach é jornalista.

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