Porque há poucas mulheres comentaristas

Por Samantha Klein, para Coletiva.net

Talvez por saber que existam muitas jornalistas trabalhando em rádio, um ouvinte, nesta semana, enviou uma mensagem para o Whatsapp da Rádio Guaíba, direcionada a mim, questionando o motivo pelo qual não há mulheres participando dos debates da emissora durante os jogos da Copa do Mundo da Rússia.

A resposta pessoal é simples: não se pode fazer bem todas as tarefas em áreas tão diferentes. Se um repórter é mais focado em editorias como economia ou política, dificilmente será um bom comentarista esportivo. Regra básica para qualquer jornalista antes de abrir o microfone é estudo, pesquisa e uma longa bagagem de jogos, no caso de cobertura ou comentário futebolístico.

Não me sinto capaz em opinar sobre o futebol simplesmente porque não vivo o esporte como acompanho e reporto os problemas da cidade, por exemplo. Se tivesse interesse e conhecimento na área, certamente poderia batalhar por uma vaga nos debates esportivos da emissora, considerando que a chefia da Rádio Guaíba e a coordenação de esportes são muito abertas à inserção das mulheres em todas as editorias.

Por outro lado, conheço outras jornalistas que adoram e sabem muito sobre esporte. Certamente, elas estariam aptas, mas o mundo do jornalismo esportivo ainda é bastante hostil para as mulheres no papel de comentaristas. Infelizmente, parece que alguns torcedores e colegas jornalistas homens, em especial nos meios de comunicação mais tradicionais, pensam que uma mulher pode entender só da escolha do jogador com as pernas mais bonitas do time.

Como comentaristas, algumas mulheres podem ser citadas, tais como a vereadora de São Paulo Soninha Francine na ESPN - que contou em entrevista ao UOL, em 2015, a resistência ferrenha e amargurada que teve de enfrentar por parte de alguns colegas para conseguir um lugarzinho ao sol do ambiente extremamente masculino - e a Clara Albuquerque no Esporte Interativo. No âmbito regional, a Duda Streb é comentarista do conhecidíssimo Sala de Redação e nem assim deixou de ouvir que deveria ir para casa lavar louças.

Na TV, as mulheres estão mais presentes na apresentação de programas esportivos. As talentosas Fernanda Gentil, Glenda Koslowsky e Renata Fan já têm uma longa trajetória. Obviamente, os atributos físicos ainda seguem tão importantes quanto os intelectuais no caso das apresentadoras, enquanto o mesmo pré-requisito não parece incidir sobre os homens. Afinal de contas, esses programas ainda têm como norte atrair os torcedores, levando pouco em consideração que também há torcedoras do outro lado da telinha.

Repórteres de campo e de torcida estão aumentando nas emissoras de rádio, webrádio e TV, mas, depois de tantas cenas lamentáveis de assédios, agressões e xingamentos por estarem 'invadindo' um espaço que até pouco tempo era um sagrado templo dos homens tiveram de lançar a campanha #deixaelatrabalhar. Profissionais de diversos veículos de comunicação de todo o país se uniram para dar um basta, mas as cenas de machismo e as agressões ainda se repetem.

Mesmo que os homens também estejam sujeitos ao assédio no ambiente do trabalho ou a hostilidades no estádio, eles nunca saberão o que é engolir piadas maldosas de cunho sexista na arquibancada ou ter o medo de ser agredida ou inferiorizada por ser mulher: na rua, por um colega ou entrevistado. Nesse sentido, o feminismo acaba entrando de sola no mundo do jornalismo esportivo porque é impossível não se posicionar. E não esqueçam, o silêncio é muito revelador. Não falar nada também é um posicionamento.

Talvez o campo dos comentaristas ainda seja o mais árduo a ser desbravado pelas mulheres, mas estamos avançando. Paulatinamente, pelas beiradas. E quando os machistas entronados do rádio, TV, jornal ou internet perceberem que podemos, assim como eles, tanto lavar uma louça quanto analisar taticamente um time e um jogo inteiro de futebol, eles já terão perdido seu espaço.

Samantha Klein é repórter e apresentadora dos programas Guaíba News e Elas por Elas na rádio Guaíba.

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