Rita

Por Daniela Sallet, para Coletiva.net

Tenho um afeto por esta Porto Alegre que é sem tamanho. Um amor que começou bem longe, lá longe quando nem asfalto ligava a minha Cândido Godói a Santa Rosa e eu acompanhava o Jornal do Almoço com a Maria do Carmo, a Suzana Saldanha, a Rejane Noschang, o Celestino Valenzuela e o inesquecível Clóvis Duarte. Posso estar misturando as épocas, mas a Tânia Carvalho já devia estar distribuindo alegria e alto astral pela Difusora ou TVE. Das memórias daquele tempo, está o despojamento da Suzana no quadro 'Variedades', com as pernas cruzadas sobre o sofá. Admirava essa ousadia, mas minha inspiração profissional era a classe, a firmeza e a presença da Maria do Carmo. A voz dela me levava a ruas e bairros da Capital que eu desconhecia. Azenha remetia a algo ruidoso, Menino Deus a um canto bucólico, e os altos da Protásio a uma cidade cheia de subidas e descidas, bem como é. Petrópolis, Higienópolis e Teresópolis também inquietavam esta imaginação interiorana, sempre que pronunciadas com a dicção impecável da Maria.

Muitos lugares idealizados na minha mente juvenil acabaram cenários de reportagens, e tive o privilégio de conviver com alguns ídolos da comunicação, nos anos em que trabalhei em TV. Fora os novos colegas de profissão, que acabam se tornando o primeiro círculo de amigos quando o endereço muda, uma das primeiras pessoas que conheci em Porto Alegre foi a Rita. Aconteceu quando decidi comprar um consórcio de carro. Num lugar inesperado, ela entrou na minha vida para trazer sorte e ensinamentos. Sorte porque saiu meu nome já no primeiro ou segundo sorteio. E ensinamentos porque Rita sempre fez bem mais do que vender consórcios. Confiante no próprio talento e acreditando no seu negócio, ela explicava a mim - e a qualquer novo cliente -que esse era um bom caminho para economizar e formar patrimônio. Usando seu exemplo pessoal bem-sucedido, fazia uma consultoria informal esclarecedora, sempre atenciosa e com um sorriso daqueles que transforma qualquer dia mais ou menos.

Se os colegas lá de cima me inspiraram a fazer telejornalismo, é certo também que a Rita me inspirou a fazer algo indispensável nos negócios e na comunicação: o relacionamento. Nos conhecemos há mais de 20 anos e, desde então, nunca mais tive um agosto e um dezembro sem notícias da Rita. Sequer a chegada das redes sociais a impediu de dar o ar da graça em forma de papel, nos seus indefectíveis cartões de aniversário e de Natal. Rita nunca me esqueceu e nunca me deixou esquecê-la.

Em tempos de "commodities" em todas as áreas, produtos pasteurizados, influenciadores digitais, face, insta, snap, adwares, remarketing e todo tipo de invasão nas nossas telas, é o velho e bom relacionamento que tem feito a diferença. Esse grande caminho de cordialidades, uma construção que leva tempo e que a vida retribui a quem alimenta. Rita e eu não somos amigas virtuais, o que facilitaria o contato, mas de tempos em tempos dou um jeito de visitá-la no trabalho. Chego de surpresa e, assim mesmo, ela tem tempo para um café e uma conversa. Falamos da saúde, da família, das viagens, agradeço as lembranças carinhosas de aniversário e Natal e não fechamos nenhum novo negócio. Saio de lá certa de que os cartões vão chegar outra vez.

Um amigo contava outro dia da atitude de alguns colegas concursados, que costumam justificar o péssimo tratamento ao público com frases do tipo "não recebo para dar bom dia". Ninguém ali é da velha guarda à espera da aposentadoria, mas uma galera dos cursinhos que "mirou a lua e acertou um banco estadual", brincou ele. Azar dos clientes, porque onde a frustração reina a empatia adormece. Azar dos colegas, que não conhecem a Rita, porque aprenderiam muito com ela. Saberiam, por exemplo, que esse mundo é tão pequeno, que logo ali a vida dá uma guinada e nos reencontramos todos, os que tratamos bem e os outros. Vai ficar a melhor imagem que a gente deixar da gente mesmo. Não fosse o relacionamento algo tão precioso, os eventos de networking não seriam o sucesso que são. A propósito, se alguém está em busca de um consórcio, indico uma especialista de olhos fechados. Bem fechados.

Daniela Sallet é jornalista e foi repórter e apresentadora na RBS TV, Band RS e TVAL.

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