Você já viu a famosa planilha sobre Como é trabalhar aí 2.0?

Por Rafael Martins, para Coletiva.net

Há dois anos, foi criada uma planilha na qual os profissionais de Comunicação poderiam, anonimamente, descrever como era trabalhar na agência onde atuavam. Gerou muita polêmica e grandes discussões e eis que, agora, ela voltou.

Dei uma boa lida nela e recomendo que faça o mesmo.

Achei muito parecida com a planilha que foi feita dois anos atrás. O que, pra mim, mostra algumas coisas:

  1. Não evoluímos muito, ou seja, quem escreveu, segue escrevendo; Quem foi citado, segue deixando pra lá, achando que é mimimi;
  2. Obviamente, temos quem se aproveite do anonimato para falar mal de concorrentes, criar inverdades. Tem gente que aumenta, tem gente que elogia, tem gente que ainda chora ao preencher e tem gente que, de verdade, acha que isso vai surtir algum efeito prático;
  3. Do outro lado da mesa, imagino alguns líderes e donos de agências lendo tudo isso com olhos de "bom, vou pensar o que posso fazer pra melhorar isso". Outros, leem com medo que seus clientes tenham acesso e isso "pegue mal", pois, no fim, quem assedia, paga mal e explora, não se comove com avaliações negativas, haja vista que já devem ter ouvido coisas assim, muito antes da existência da planilha, por isso a possível dor no bolso, pela perda de uma conta ou algo nessa linha, os faz ficarem ligados;
  4. O anonimato é um ponto que muita gente questiona, mas acho que não tem como ser diferente, pois, em um mercado que se pede a cabeça por muito menos, se fosse com identificação, obviamente ninguém ia fazer. Por medo, pois tem muita gente que se sujeita a algumas coisas (converso com muitas pessoas) porque precisam pagar suas contas e porque sabem que o mercado ainda trabalha no famoso "não quer, tem quem queira". Então, muita gente se sujeita a certas coisas pra não perder o trabalho;

Se formos olhar anos atrás, o sonho do publicitário jovem era virar diretor de Criação e ir trabalhar em São Paulo, até meia-noite, sem final de semana, mas batendo no peito com orgulho disso tudo, porque ganhou Cannes. Hoje, a galera não curte mais isso e quer continuar trabalhando com Publicidade, mas saindo no horário. Como faz?

Vejo algumas pessoas comentando coisas tipo "ah mano, para de reclamar, senão gosta vai procurar outra profissão", como se trabalhar com comunicação nunca pudesse ser diferente de ruim. E sim, pode ser muito diferente, pois existe muita gente insatisfeita e agências ruins, mas tem muita agência legal, com cabeças humanas e que fazem, de verdade, o que podem para mudar. Então, dá pra ser feliz trabalhando em agência, sim. Se você não é, talvez esteja na agência errada.

Mas fica um questionamento no meio de tudo isso: Perdeu-se o glamour de ser publicitário? Talvez.

Minha conclusão é que o único que pode, de fato, fazer mudar alguma coisa é quem "financia" o mercado, no caso, o cliente. Se o cliente acessar a lista, vai pensar: "Opa, o dono da agência que me atende assedia as pessoas. Vou procurar saber." "Opa, a agência que me atende trata mal as pessoas, faz elas trabalharem horas e horas excessivas e não paga por isso. Vou procurar saber". Já é um baita começo.

Muita gente me di: "Mas, Rafa, o cliente tem culpa também, pois pede alteração às 20h de uma sexta-feira". Ora, se a agência sabe que o cliente necessita dessa entrega, por vezes fora do horário, que tenha pessoas também nestes horários para atendê-los. O ponto aqui não é o horário que o cliente pede as demandas, mas, sim, como isso tudo é organizado. Imaginem um hospital que recebe pessoas a todo momento, se tivessem apenas um médico, ou vários que pagam para trabalhar seis horas por dia, mas toda vez que chega alguém doente pede pra ele ficar mais um pouquinho, vai se colocar a culpa no paciente?

Recomendo aos amigos que acessem a planilha, deem um CRTL + F e digite a agência que os atende, é um bom começo para mudar.

Acho ótimo falar sobre o assunto e o fato de existir a planilha, pois, sem isso, não estaríamos pensando e debatendo. E esse post, eu nem teria feito.

Rafael Matins é CEO do Share.

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