Inverno sem vento e sem chuva

Por Márcia Martins

Nestes dias enfarruscados que se apresentaram desde o último sábado, com leves e episódicos cenários de uma nesga perdida de sol, uma folga do horizonte nublado ou um intervalo nos pingos da tempestade, é comum - e talvez até aceitável - que se perca a vontade de grandes gestos, atitudes, decisões e realizações. Os dias com aparências carregadas, escurecidas e sombrias afastam qualquer desejo de passear, fazer algum tipo de lazer, planejar um cinema, ainda que seja num shopping, ou acertar um café gostoso e quentinho com uma amiga no meio da tarde. E às noites, então, nada melhor do que um bom roupão, um edredom aconchegante e uma canja fumegante.

Não pensem, por favor, que envelheci de repente e que do dia para a noite pareço aquelas velhas resmunguentas e lamurientas que passam todo o Inverno (sim, ele já chegou), a reclamar do frio. Não sou assim. Eu, particularmente, gosto do frio, do charme das echarpes, da elegância das pashminas, da belezura dos casacões com comprimentos abaixo dos joelhos. Confesso apreciar o ato de bebericar um cabernet sauvignon, elaborar uma tábua variada de queijos, pilotar o fogão para preparar uma canja (dizem que é minha especialidade) ou uma sopa de capeletti. E preciso revelar que adoro descansar no sábado à tarde, vendo um filme na Netflix, lendo ou livro ou ouvindo uma música.

Mas como ter disposição para desfilar com elegância, dividir momentos com amigas (os) em passeios ao ar livre ou deixar o corpo experimentar um pouco de lazer junto à natureza com o cenário nublado e encoberto? Essas opções, com certeza, foram descartadas, nos últimos quatro dias. Logo, uma caminhada no parque no início da manhã está totalmente descartada. Principalmente porque se não houver a necessidade, não há nada que me tire da cama cedinho. Uma corrida ao redor da Redenção nem pensar. Uma pernada até o Centro para uma reunião de diretoria do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul admirando as ruas de Porto Alegre foi trocada pelo transporte coletivo.

Reafirmo para não ser classificada como louca de atar, uma vez que em colunas anteriores já escrevi sobre o romantismo do Inverno, que prefiro a temperatura fria ao rigor do Verão. Só que simpatizo com o Inverno sem vento e sem chuva. É simples. Se não tiver aquela ventania de levantar as saias, bater janelas e rodopiar as crianças de tanto furor, eu prefiro o Inverno. Se não tiver aquela tempestade com trovões horríveis e relâmpagos assustadores, que perturbam a o sossego do meu vira-lata Quincas Fernando Martins, eu prefiro, sim, o Inverno.

Sem vento e sem chuva, acho o Inverno tão aconchegante, tão acolhedor, tão simpático, tão propiciador de passeios, encontros, combinações a qualquer hora do dia ou da noite. Aproveito, sempre, o acolhimento do Inverno para rever os (as) amigos (as), colocar em dia os filmes em atraso, convidar pessoas para sorver um café sempre quentinho e preparar pratos deliciosos na cozinha. Enquanto persistir este Inverno feio, com chuvas, trovoadas, raios e rajadas de ventos, vou ficar hibernando.

Autor
Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Famecos/PUCRS, militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editoriais de economia e geral, e em assessorias de comunicação social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em antologias, diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RS (Sindjors), e secretária do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA). Tem o blogmarcinhaprodigio.blogspot.com. É mãe da Gabriela e avó dos caninos shih tzu Dalai, agora uma estrelinha, e do vira-lata Quincas Fernando.

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