O jovem de hoje fará a política de amanhã

Por Elis Radmann

A política é vital e está associada diretamente ao nosso cotidiano. A política influencia no custo de vida, define os impostos e taxas que devemos pagar, determina quanto tempo temos que trabalhar para usufruir dos direitos da aposentadoria, as regras de trânsito, as diretrizes para a educação, o sistema de saúde e de segurança que temos, o que é certo e o que é errado e, inclusive, levanta o debate sobre podermos, ou não, dar uma palmada em nossos filhos.

E temos que ter consciência de que vivemos um grande paradoxo: a política define a vida das pessoas e as pessoas não querem saber de política. Salvaguardando todas as proporções e diferenças, em uma democracia, a política é tão vital quanto a água, inclusive, muitas pessoas podem sofrer consequências sérias se a política não cuidar bem da água.

Como cientista social e política, que coordena o IPO - Instituto Pesquisas de Opinião, acompanho o crescente desinteresse das pessoas pela política, em especial, em relação às instituições representativas que fazem a política funcionar: entidades de classe, associações, sindicatos e os partidos políticos.

Quando vejo este contexto, me preocupo em observar se os jovens também são céticos e desiludidos. E, infelizmente, os jovens, em sua maioria, não querem saber de política ou dos partidos políticos.

A criança de ontem é o jovem de hoje. Se a criança recebe, sistematicamente, a informação de que a política não presta ou de que ela deve ficar longe de política, o resultado é um jovem com uma percepção negativa da política, dando voz ao ditado que diz que somos o reflexo do que vivemos.

Não estou eximindo a responsabilidade dos políticos e partidos, afinal de contas quem, neste momento, tem 18 anos passou sua adolescência inteira assistindo a um terrível noticiário: desvios, corrupções e prisão dos principais representantes do povo. E este jovem, que foi forjado em uma sociedade que rejeita a política, está totalmente conectado nas redes sociais.

É sabido que a juventude traz consigo uma rebeldia natural. Geralmente, o jovem se rebela em relação a um princípio que lhe é imposto. No atual contexto, o jovem tenta se rebelar contra o descrédito e, na prática, converte a sua ira aos serviços públicos que têm problema ou a alguma decisão que discorda, mantendo a premissa de que não gosta de política.

É como se estivéssemos construindo um mundo paralelo. Estes jovens têm mais educação formal e acesso a informação, mas, pela rejeição à política, desconhecem a organização da política do mundo real, não têm uma ação prática off-line, não participam de nenhuma instituição e não debatem cara a cara. 

Fazem o seu ativismo digital por pautas individuais ou por ações coletivas que lhe são caras. Se o jovem gosta de pets, passa a apoiar quem precisa de ajuda ou defende s animais.

Os jovens utilizam a internet para emitir os seus juízos de valor, se posicionar de forma individualista, crítica e, muitas vezes, até egoísta. Defendem desde questões comportamentais até mudanças legais, não mostrando muita paciência para dialogar ou debater e, quando o conflito se acirra, deletam ou bloqueiam, mantendo uma bolha de relações.

Como a política é instintiva, em um ativismo digital motivado por ondas da internet para os jovens, é muito fácil repassar centenas de convites para uma manifestação ou fazer um blog para postar a sua opinião.

O grande desafio é conectar os jovens à política off e as instituições representativas ou, ainda, reposicionar as instituições representativas para que elas se conectem aos jovens.

Autor
Elis Radmann é cientista social e política. Fundou o IPO - Instituto Pesquisas de Opinião em 1996. Utilizando a ciência como vocação e formação, se tornou uma especialista em comportamento da sociedade. Socióloga (MTb 721), obteve o Bacharel em Ciências Sociais na UFPel e tem especialização em Ciência Política pela mesma universidade. Mestre em Ciência Política pela UFRGS e professora universitária, Elis é diretora e Conselheira da Associação Brasileira de Pesquisadores de Mercado, Opinião e Mídia (ASBPM) www.asbpm.org.br

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