Placas azuis

Por José Antônio Moraes de Oliveira

"Existem dois lugares no mundo onde

o homem pode sonhar e desaparecer -

os Mares do Sul e as ruas de Londres."

(Herman Melville)

Aqueles que perambularam pelas ruas de Londres certamente notaram as placas azuis fixadas na fachada de casarões, praças e esquinas. Elas estampam nomes de celebridades que ali viveram ou morreram em certo momento do passado. As Blue Plaques são os símbolos do resgate da memória da cidade, patrocinadas pela British Heritage. Lembram os homens e mulheres que fazem parte do patrimônio cultural e histórico de Londres. O músico Igor Stravinsk, comentou, ao ver instalada a placa dedicada a Charles Chaplin:

"Sem eles, não valeria a pena viver."

Existem atualmente cerca de 900 Blue Plaques em Londres, algumas datadas no início do século XIX. No início, eram reservadas a poucos e grandes personagens, como Charles Dickens, Isaac Newton ou Sir Edmund Hillary, o explorador do Everest. Com o passar dos tempos, a lista se tornou eclética, acolhendo políticos, heróis de guerra, atrizes do teatro e cinema e... cantores de rock. No entanto, por alguma estranha razão, a grande poesia inglesa está pouco presente na seleção da venerável British Heritage.

A Kensington Court Gardens é uma típica rua londrina, com suas elegantes mansões vitorianas de tijolos vermelhos e portadas brancas. Ali, no número 3, vê-se uma destas placas azuis, marcando o endereço onde viveu e morreu um dos grandes poetas da língua inglesa, Thomas Stearns Eliot, mais conhecido como T.S.Eliot.

O poeta morreu em 1965, vítima de enfisema e deixou uma obra poética de modestas proporções, mas de gigantesca densidade e força. Seus críticos a classificariam como inovadora, provocativa e de difícil compreensão. Ele mereceu de Edmund Wilson um raro elogio:

"Eliot é guardião da linguagem e feiticeiro das palavras."

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Foi um esquivo personagem da celebrada 'A Geração Perdida' da Paris dos anos 1920. Participou das libações e cafés-literários com Isadora Duncan, Gertrude Stein e Alice B.Toklas. Mais tarde, se agrupou aos norte-americanos John dos Passos, James Joyce, Ezra Pound, Francis Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway e Aron Copland.

A bem da verdade, T.S. Eliot não era um dos personagens mais animados da "festa móvel", instalada no triângulo Café de Flore/Les Deux Magot/Brasserie Lipp.

Ele se hospedava ali perto, no Hotel Lenox, na rue de l'Université. Por coincidência, no mesmo hotel que, anos mais tarde, acolheria James Joyce, o autor de Ulysses e admirador declarado da obra de Eliot. De temperamento retraído, ele se dividia entre a Sorbonne e o Café du Dome, no Boulevard du Montparnasse. Ali, em uma mesa de janela, lia a poesia de Arthur Rimbaud e Paul Verlaine. Mais tarde, lembraria a influência que recebeu de Ezra Pound e James Joyce, antecipando o movimento modernista, que se esboçava na Europa. Juntamente com os irlandeses James Joyce e W.B Yeats, a poesia de T.S. Eliot é um prenúncio dos negros tempos que chegavam na Europa do entre-guerras. Em um de seus versos mais conhecidos, em Hollow Men, ele faz assustadora amostra do fim do mundo, com a imagem de "que tudo não vai acabar com um estrondo, mas com um gemido":

"This is the way the world ends,

Not with a bang but a whimper."

A pedido, suas cinzas foram depositadas no cemitério da Igreja de São Miguel, em East Coker, a pequena aldeia de onde seus ancestrais emigraram para a América. Na placa comemorativa, está gravado um de seus mais emblemáticos versos:

"In my beginning is my end.

In my end is my beginning."

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Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.

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