Quando as coisas se confundem

Por Cris De Luca

Tem uma coisa que é primordial quando se trabalha com comunicação e cada vez mais necessária quando se vai falar com qualquer público que é conhecê-lo, enxergar quais são suas necessidades e tentar entregar o que esteja mais próximo do ideal para ele. Uma organização tem seus próprios valores, seu propósito, suas regras e devem segui-los para que os clientes se vejam nela, criem uma sintonia (ou, como dizem, deem match) e passem a fazer negócios com ela, o que nem sempre significa consumi-la. Assim sem os relacionamentos, pelo menos deveriam ser.

Uma marca não pode deixar de ser o que ela é na essência apenas para agradar a uma parcela de consumidores, para tentar furar a bolha. Mais cedo ou mais tarde, algum indício de incompatibilidade no discurso ou na atitude vai aparecer e o público vai se sentir enganado, traído. Aí, existem as pessoas que quebram o vínculo com a empresa de forma harmônica, apenas deixando de comprar. E outras que vão colocar a boca no trombone (redes sociais digitais ou não), fazendo com que o outro precise se retratar ou sumir por um tempo até que as coisas estejam estabilizadas.

Percebam que até agora só estou falando de relacionamento de organização com seus públicos, mas bem que podia ser de qualquer outro tipo de relação. Fiquei pensando nisso depois que vi uma amiga compartilhando no Facebook uma 'pérola' de um possível crush. Imaginem o seguinte perfil de público: mulher, mais de 30 anos, profissional liberal com estabilidade financeira, divorciada, um filho, feminista, que gosta de beber um bom vinho, querendo conhecer pessoas interessantes e por aí vai. Tirando alguns detalhes, ela tem um estilo bem parecido com o meu.

E aí o prospect (sim, a gente pode usar, inclusive, os mesmos termos mudando de área) faz a seguinte declaração: "Acho que quem deve conduzir a relação é o homem, é algo biológico, desde os tempos das cavernas era assim, não tem como ir contra a natureza". Ainda bem que o discurso já foi esse logo de cara para fugir a tempo e tomar uma distância bem grande. Se tiverem alguma dúvida é só voltar ao perfil do público novamente. É como se um açougue estivesse tentando vender para vegano, massa fresca de farinha de trigo para celíaco, carne de porco para judeu, entre outras comparações possíveis.

Claro que ele poderia tentar encaixar a fala dele ao que ela gostaria de escutar. Todos nós sabemos disso. Também temos convicção de que em uma época tão digital, com redes sociais por todos os lados, facilmente se descobriria que o conteúdo não estava condizente com os valores dele. Em algum momento, se escorrega e se mostra a essência. Para a minha amiga, o melhor foi o se mostrar logo de cara como pensa, para não gastar energia com algo que realmente não tem a ver com ela. Mas, com toda certeza, tem algum público esperando exatamente por esse discurso para entrar num relacionamento, seja pessoal, seja com uma marca.

"Cris, que coisa horrível tentar colocar as mesmas 'regras' para tipos de relacionamento tão diferentes"! Será mesmo??? Fica a reflexão.

Autor
Jornalista, formada pela Universidade Federal de Santa Catarina, especialista em Marketing e mestre em Comunicação - e futura relações-públicas. Possui experiência em assessoria de imprensa, comunicação corporativa, produção de conteúdo e relacionamento. Apaixonada por Marketing de Influência, também integra a diretoria da ABRP RS/SC e é professora visitante na Unisinos e no Senac RS.

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