Saúde, Poa

Por Fraga

Alguns cidadãos portoalegrenses às vezes se mostram injustos com a cidade. Acham que ela não procura melhorar. Engano deles.

Aos 247 anos e com ruínas contemporâneas, a capital sofre. Pero, não para de procurar a cura pros seus males. Em vão: cada especialista diz uma coisa, sugerem diferentes remédios, e a coitada só piora. 

Nas últimas décadas já fez trocentas consultas - a maioria inúteis; realizou inúmeros tratamentos, quase sempre equivocados, e tem protelado incontáveis outros. Seu prontuário acumula excesso de diagnósticos, escassez de soluções. Pelo estado da anciã açoriana, dá pra imaginar parte deles.

Pelo abandono da aparência da cidade - pele cada vez mais esburacada - vê-se que os dermatologistas de plantão só têm feito maquiagem. Alguma esfoliação nos canteiros e nas calçadas também é necessária. 

Apesar de bastante arborizada, seus pulmões poderiam ser maiores, sem risco de insuficiência respiratória. É que Porto Alegre já teve ótimos pneumologistas, que verdejaram ruas, avenidas, praças e parques. Agora, porém, o monóxido e a lixívia fazem a cidade tossir demais, e os moradores nem se preocupam de plantar balões de oxigênio em frente de casa.

Quanto aos rins da cidade, até que funcionam bem. O problema é a incontinência urinária: quando tem temporal a cidade fica nervosa e aí não há urinol - vulgo esgoto pluvial - que dê jeito. A última junta de nefrologistas que achou que daria um jeito nos rins da cidade adotou a fralda indescartável da Mauá. E cada vez que outros especialistas tentam reexaminar a situação, nada muda. Tem que ver isso daí.

Um problemaço de Porto Alegre são suas artérias e veias. A circulação da idosa metrópole a faz padecer em várias regiões em diversos horários do dia.

Incessante entupimento arterial com ameaça de seguidos colapsos. Já que os angiologistas daqui não resolvem, quem sabe alguém vindo de fora faria uma angiografia sem os cacoetes congestionantes da engenharia de trânsito local.

A estrutura de serviços de Porto Alegre bem que precisa dum novo ortopedista: nossos tortopedistas a deixaram sem agilidade, parece que a cidade sempre tropeça nas necessidades urbanas.

O fígado da cidade, que elimina os rejeitos do organismo urbano, deveria fazer  exame vez em quando. Só pra saber se os hepatologistas do DMLU estão funcionando bem, se verificam se a coleta de lixo não acumula impurezas no sistema, mais conhecida como máfia do lixo.

Em razão da possiblidade de câncer na gestão pública, urgem check-ups regulares. Suspeitos nódulos administrativos e o perigo de metástase financeira podem levar um ou mais órgãos municipais à falência.

A cidade não pode descuidar também da sua saúde emocional. Há anos Porto Alegre vive carente ao se sentir descuidada aqui e ali por certos prefeitos e secretários. No caso do atual prefeito, a impressão é de ser rejeitada. Se não é pra tratar bem Porto Alegre, por quê se candidatar?

Quanto ao coração, ainda bem que a cidade tem mais de um milhão e meio deles. Cada cidadão que a compreende pode bater intensamente por ela.

Feliz aniversário, velhinha adorável.

Autor
Fraga. Jornalista e humorista, editor de antologias e curador de exposições de humor. Colunista do jornal Extra Classe.

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