"Isso é tudo!"

"Como se sentir triste se existem tantas coisas que podem te fazer feliz?"

(Larry Woodland, ex-milionário)

Quem conhece Wall Street e seus domínios, dificilmente deixará de encontrar Larry Woodland. Todos os dias às 8h, ele se instala com sua caixa de engraxate em uma esquina da Pearl Street e começa a trabalhar. Seus clientes habituais são banqueiros e corretores da Bolsa de Valores, que fica a poucos metros dali. Larry não se considera um engraxate, mas um missionário:

"- Minha missão é fazer brotar um sorriso no rosto das pessoas."

Vai completar 66 anos e sua vida já foi contada na CBS e BBC, nas quais foi apresentado como Mister Sunshine. O título agradou ao imaginário novaiorquino e ele virou personagem em Wall Street. Mas não mudou sua rotina. Sentado em uma banqueta, Larry passa as tardes fazendo brilhar os sapatos de executivos e surfistas financeiros. Vestido com sedas e cores, ele se oferece para lustrar os calçados de quem passa pela Pearl Street sem cobrar um centavo.

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Mas a vida deste californiano, nascido em Los Angeles e criado em San Francisco já foi diferente. Nos anos 1980, Larry Woodland não precisava nem lustrar seus próprios sapatos, porque era um milionário. Começou como gerente de vendas em um negócio bem-sucedido de vendas de vitaminas da família de sua mulher. Vendedor nato, ganhava gordas comissões de vendas e quando a empresa foi comprada por uma multinacional chinesa, Larry embolsou um cheque de US$ 4 milhões. Ele conta que aquilo mudou sua vida do dia para a noite. Comprou um Rolls-Royce, contratou motorista e mordomo, promovia festas e só bebia champanhe francês:

"- Virei um homem arrogante, voluntarioso, que tinha tudo o que queria. Não respeitava ninguém, pois muito dinheiro faz você acreditar que é melhor do que os outros."

Um dia, o entediado Larry notou um velho chinês em uma quitanda em frente à sua mansão. Usava um imaculado quimono branco e atendia com extrema cortesia seus clientes, fazendo profunda reverência a cada um deles. E quando não havia ninguém para atender, varria o chão da loja, a calçada e até a rua. Intrigado com aquilo, mandou o mordomo saber sobre aquele homenzinho. O que descobriu o ajudou a mudar de vida - o chinês de quimono branco que varria meticulosamente o chão da quitanda e a rua era dono de uma cadeia de lojas e mercados em Queens, Long Island e New Jersey. Falava-se que seu patrimônio era de US$ 50 a US$ 60 milhões. Aturdido, Larry atravessou a rua e foi procurar o velho chinês. E, sem mais nem menos, quis saber porque um milionário se prestava a atender no balcão e varrer o chão. A resposta o deixou ainda mais aturdido:

"- Eu procuro esquecer que sou rico. Pensar em dinheiro faz mal. E o dinheiro é péssimo conselheiro."

O milionário se afastou confuso e sem saber o que pensar. Mas decidiu mudar de vida e imitar o velho chinês. Vendeu o Rolls, despediu o motorista e mandou o mordomo comprar uma caixa de engraxate. Foi quando descobriu que sua fortuna havia minguado e que estava com dívidas que nem imaginava existirem. Vendeu a mansão, pagou os credores e foi engraxar sapatos de seus amigos de Wall Street. E em, uma forma de penitência, passou a não cobrar pelos serviços. O dinheiro que ganha é da venda de uma cera de lustrar couro made in China, que vende por US$ 10 o pote, que lhe dá o suficiente para viver. Enquanto engraxa sapatos, Mr. Sunshine entretém os clientes com seu jeito extrovertido e sua habilidade em despertar sorrisos. E fica feliz quando as pessoas falam:

"-Você fez o meu dia."

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"- Esse homem é uma lenda urbana", diz um jovem corretor da bolsa entrevistado pela BBC, que acrescenta:

"-Veja o brilho que ele deu em meus sapatos. Imagina então o que ele pode fazer pela sua alma."

Mas nem todos entenderam a mudança de vida de Larry Woodland e se perguntam como alguém deixa sua mansão e vai para um apartamento da Assistência Social. O árabe dono de uma banca de jornais na Hanover Square diz que é castigo de Alá. Mas Mr. Sunshine não liga para os comentários. Afirma que é mais feliz agora do que quando milionário:

"- O Rolls Royce não faz falta, me divirto tomando o ônibus. Não quero ganhar dinheiro, apenas me preocupo em ser uma pessoa boa. Isso é tudo."

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Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.

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