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Luis Fernando Verisimo – Dívida veraz

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Devo muito ao Verissimo, como escritor. Ele está entre os dez autores a quem mais devo. Mas não o culpem. Aprendi o que pude.

Comecei a ler o Verissimo em 1972 ou 73, em meio a uma crise existencial cabeluda: tinha metido na cabeça que seria humorista. Quer dizer, devo ter começado a ler o Verissimo pelo humor de suas crônicas. Mas, logo descobri, a graça era apenas uma das virtudes literárias do homem: ele tinha tudo o que o bom senso exige nessa aventura de loucos varridos. Sim, clareza e precisão. Não chega? Inteligência. Verissimo é da turma do Robert Louis Stevenson: o inteligente que não ostenta a inteligência, que não se compraz em esfregá-la em nosso nariz.

Mas tem mais: ele nunca faz literatura. Tem um teste simples pra descobrir isso. Leia um texto em voz alta. Se soar como se você tivesse uma batata na boca, é literatura. Ou se você começar a sentir comichões em locais remotos, a suar frio e a desejar que a terra se abra e você suma, pode crer, você está sob um ataque de beletrismo. Num país de bacharéis, escrever com naturalidade, sem dar mole pra pompa e pra frescura, é quase um milagre.

Ser claro, preciso, inteligente e ainda se expressar com graça é difícil, mas não tão raro. Cada país tem uma meia dúzia de casos desses por século. O difícil é fazer isso por anos e anos sem botar os bofes pra fora.

Tive a sorte de conhecer o Verissimo pessoalmente. Sou péssimo com datas, mas cravo: foi em 1975, quando o frasista e homem dos sete instrumentos Guaraci Fraga organizou uma antologia de humor chamada QI-14, onde entrei de contrabando. Nosso encontro com certeza vai pros anais da história literária brasileira. Ele me disse: oi. E eu, mesmo manietado pela timidez da minha adolescência, respondi na bucha: oi. Isso foi tudo, mas o silêncio que se seguiu estava prenhe de possibilidades.

Nesses últimos quarenta e um anos, nos encontramos algumas vezes e até falamos frases completas. Infelizmente, nunca tive coragem de agradecer os momentos felizes em que li e reli muitos dos livros dele. Gosto de pagar minhas dívidas, desde que não envolvam dinheiro, mas tem horas que o pudor atrapalha.

Enfim, desculpe o mau jeito. E feliz aniversário, cara. Continue escrevendo pelo menos até os 120.

Veríssimas

Como aperitivo, catei ao acaso algumas frases do livro Veríssimas.

– O Brasil é governado por minoria esmagadora.

– O político brasileiro, uma vez eleito, se sente a salvo em outro país, o Brasil oficial, que não deve nada ao Brasil de verdade, muito menos explicações.

– Às vezes, a única coisa verdadeira num jornal é a data.

– Nossas instalações carcerárias melhorariam muito se as elites começassem a frequentá-las.

– O único engajamento político que se deve pedir a um artista é o de retratar a estupidez humana e usar sua criação como um testemunho contra. Se não fosse pelos artistas, a crueldade da história não deixaria vestígios.

– Viva todos os dias como se fosse o seu último. Um dia você a certa.

– Confundir ordem e normalidade com seus próprios privilégios é um velho hábito de qualquer casta dominante.

– Os Estados Unidos conseguiram se tornar uma potência inédita na História do mundo: são como Roma e os bárbaros ao mesmo tempo.

– As unhas do pé serviam bem ao macaco, mas nada explica que nos dias de hoje elas permaneçam, cresçam e sejam pintadas de ruby incandescente.

– Uma poesia não é feita de palavras. A poesia já existe. A gente só põe as palavras em volta para ela aparecer – como as bandagens do homem invisível, lembra?

– A nossa insignificância diante do Universo infinito é um negócio chato, e o pior é quando a mulher nos lembra disto na frente das visitas.

– Toda a história da democracia no Brasil é a história da educação de nossa elite na arte de não mudar nada, ou só mudar o suficiente para não perder o controle.

Autor
Ernani Ssó se define como “o escritor que veio do frio”: nasceu em Bom Jesus, em 1953. Era agosto, nevava. Passou a infância ouvindo histórias e, aos 11 anos, leu seu primeiro livro sozinho:Robinson Crusoé. Em 1973, por querer ser escritor, entrou para a Faculdade de Jornalismo, que deixou um ano depois.  Em sua estréia, escreveu para O Quadrão (1974) e QI 14,(1975), publicações de humor. Foi várias vezes premiado. Desenvolve projetos literários para adultos e crianças.

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