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O espadachim e a tristeza da Rússia

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Em nova devassa num dos armários de minha biblioteca, topei com duas folhas com manchas amarelas de tempo e o texto abaixo datilografado na segunda e última Lettera 22 que tive, o que deve nos colocar nos anos 80. Como o título me pareceu interessante, comecei a ler e descobri que se tratava do prefácio que escrevi para Anos civis, livro de charges do meu velho amigo Celso Schröeder, que não vejo provavelmente desde a época da Lettera (espero que isso não tenha acontecido por causa deste prefácio). Hoje, o Schröeder dá aula no Jornalismo da PUC-RS, mas é do tipo que se mete em tudo quanto é coisa. Por exemplo, foi chargista do Correio do Povo e presidente da Fenaj, Federação Nacional dos Jornalistas. Acho que o livro acabou não saindo. De qualquer forma, aqui está o prefácio. Mesmo sem lembrar de nenhuma charge, assino de novo o que disse. Só eliminei três vírgulas.

E.S.

PS: Sei que se trata da segunda Lettera porque a primeira foi tão usada que muitas teclas se gastaram, daí que a parte de baixo das letras saía mais fraca ou simplesmente sumia.

Como poetas e contistas, os chargistas são raros. Um bom verso e um bom conto podem acontecer a qualquer pessoa. Mas muitos bons versos e muitos bons contos só acontecem a poetas e contistas. Ocorre o mesmo com as boas charges. É a lógica do raio: muitos raios caem no mesmo lugar apenas se ali houver um para-raios. O fato de todos os jornais terem alguém ocupando o emprego de chargista não quer dizer nada, ou melhor, torna mais evidente a flagrante carência de para-raios, digamos.

Schröeder é chargista. Para o bem e para o mal, ele é chargista. Não sou eu quem está dizendo, mas este livro, Anos civis. Folheie algumas páginas e comprove. Você pode até não concordar com Schröeder às vezes, mas tem de admitir: é um senhor chargista.

Falei em bem e mal porque a vida de chargista não é fácil. Ele trabalha sob pressão, sempre. O chargista não pode ficar à espera de inspiração – um jornal é feito em poucas horas. O chargista tem de ser engraçado – em cima de notícias que são uma desgraceira. O chargista precisa de faro – cada notícia é um acúmulo de interesses, quase sempre escusos, com mais fundos falsos do que a valise dos espiões. O chargista precisa de algo mais do que faro – não basta apontar a ferida: há que revelá-la, quer dizer, há que passar a informação de uma forma que tenha impacto, senão a verdade, ou o que o chargista pensa ser a verdade, se perde no tumulto dos fatos e dos dias. O chargista precisa ser ultrassintético – com uma frase e uma imagem ou apenas uma imagem, tem de acertar dois corações: o da notícia e o do leitor. Por fim, o chargista precisa ser uma pessoa independente – qualquer jornal, por melhor que seja, não atura uma pessoa independente o tempo todo.

Ou o chargista é um espadachim ou não é ninguém.

Mas a vida do chargista é mais complicada ainda. Todo dia, ele investe um bocado de talento e de inteligência, mas amanhã precisa começar tudo de novo, sabendo que cada erro – e todos erram uma ou duas vezes por semana, no mínimo – pesa mais que dez acertos, sendo o homem demasiado humano em toda parte. Jorge Luis Borges disse que os jornais são escritos para o esquecimento. É isso. O chargista precisa ser um artista mas leva vida de operário.

Agora, nem tudo, no jornal, é escrito para o esquecimento. Parte ao menos pode ser para nossa memória, não? Veja-se a charge, por exemplo. Vejam-se as charges de Schröeder, por exemplo. No dia a dia, talvez passem despercebidas para a maioria dos leitores, porque o bombardeio de informações que recebemos é mais violento do que filmes do Tom & Jarry. Mas reunidas assim não há como escapar delas: são História. Mais: são exemplares – Schröeder, para voltarmos à imagem do espadachim, é uma espécie de três em um: os três mosqueteiros, que por sinal eram quatro, em um.

Anos civis é o Brasil em quadrinhos. A cada quadrinho, uma incongruência, uma canalhice, uma miséria. A cada quadrinho, uma dor.

Entre gargalhadas, ao ouvir as engraçadíssimas histórias de Gogol, Pushkin dizia: “Deus meu, como a Rússia é triste!”. Pois é. Agora estamos com um caso parecido, infelizmente.

Autor
Ernani Ssó se define como “o escritor que veio do frio”: nasceu em Bom Jesus, em 1953. Era agosto, nevava. Passou a infância ouvindo histórias e, aos 11 anos, leu seu primeiro livro sozinho:Robinson Crusoé. Em 1973, por querer ser escritor, entrou para a Faculdade de Jornalismo, que deixou um ano depois.  Em sua estréia, escreveu para O Quadrão (1974) e QI 14,(1975), publicações de humor. Foi várias vezes premiado. Desenvolve projetos literários para adultos e crianças.

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