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A escola sem partido dos outros

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Fiz uma brincadeira, semana passada, sobre a dificuldade de fundamentalistas religiosos enxergarem o mundo de modo objetivo, já que se entrincheiram atrás de sua ideologia. Pronto, usei a palavra maldita. Bom, usei na quinta acepção registrada pelo Houaiss: “conjunto de convicções filosóficas, políticas etc. de um indivíduo ou grupo de indivíduos”. Quer dizer, não é só comunismo que é ideologia, mas neoliberalismo e todo o resto, inclusive minha modesta posição de que nas escolas ou em qualquer lugar deve-se discutir tudo, com todas as informações disponíveis, pra que cada indivíduo tenha a possibilidade de pensar de modo mais racional possível, não teleguiado por preconceitos familiares ou lavagem cerebral de uma imprensa que manipula tudo pra não largar o osso dos privilégios de seus donos.

Aguardei os mal-entendidos de sempre. Infelizmente foram só dois e infelizmente bastante comuns, pouco bizarros. Digo infelizmente porque ando colecionando ideias que, digamos, fogem à lógica mais feijão com arroz. É provável que eu não faça nada com essas ideias, mas não custa sonhar com um romance tragicômico sobre a supremacia da burrice. Os livros estão cheios de pessoas inteligentes e espirituosas, coisa que raramente vemos no dia a dia. Poucas vezes vemos pessoas burras na ficção. Claro, não é fácil tratar delas, porque por mais realista que seja um escritor – ou por isso mesmo –, será acusado de exagerar na caricatura. Mas a burrice, como disse Nelson Rodrigues, é como a grama, nasce em qualquer rachadura no asfalto. É um território vasto à espera de exploradores audazes e imaginativos.

Os exemplos que usei em minha brincadeira são grotescos por um motivo simples: se, em casos extremos como a esfericidade do planeta, houve quem fosse ameaçado com a fogueira, o que esperar de coisas mais sutis? Sei que mais de um, nesse instante exato, vai argumentar que até o Edir Macedo não nega que a Terra seja redonda. Sim, sim, mas ele acredita no diabo, ou finge que acredita, por conveniência comercial.

Veja só, eu tenho um livro infantil ou infanto-juvenil chamado Com mil diabos! (Companhia das Letrinhas, 2010, ilustrações de Edgar Vasques). Selecionei os contos populares e de fadas mais divertidos que encontrei – até consegui ser indicado ao Jabuti –, mas, mesmo assim, é o livro menos vendido. Contos sobre a morte, tudo bem, mas sobre diabo? Muitas escolas não querem nem ver. Muitos alunos se recusam a ler, apoiados por seus pais. Apenas ouvem a palavra diabo, tapam os ouvidos – literalmente, meus caros, não se trata de força de expressão.

Esses dias fui a uma escola em que o livro foi lido sabe como? Com os dedos cruzados. Depois de conhecerem as histórias, os alunos descruzaram os dedos: estavam encantados com elas e inclusive descobriram que o diabo se dava mal, que não foi defendido por mim. Se nessa escola não houvesse uma bibliotecária e professoras espertas, o livro teria sido barrado.

Então eu me pergunto: o que dizer de gente que não quer nem abrir um livro por causa de uma palavra, sem saber do que ele trata exatamente e como? O que dizer de gente que hoje em dia leva ao pé da letra uma fantasia medieval? O que dizer dessa gente metendo o bedelho na pedagogia?

Como se sabe, os defensores da escola sem partido são os defensores da escola sem o partido dos outros. Tanto é assim, que nenhuma escola religiosa é cobrada por difundir sua doutrina, dando-se de barato que está com cem por cento de razão – e isso, lembremos, num suposto Estado laico, sem falar que em alguns casos essa doutrina beira o criacionismo, provavelmente a mais bronca de todas as visões de mundo. Embalada por uma paranoia delirante, tem gente que acha que todo professor é um doutrinador marxista, como se o prestígio do marxismo como corrente de pensamento fosse o do começo do século 20 e o mero contato com ela pudesse contaminar um aluno mais que o ebola. Se nem em seu auge o marxismo pôde deter o avanço avassalador do capitalismo, o que esperar dele hoje, quando uma centena de trustes tem mais poder que os governos de vários países juntos? Se você associa marxismo à justiça social, devia ter mais medo de Jesus Cristo, mas, claro, seus ensinamentos são dados de modo seletivo.

Se o teu partido se recusa a discutir as ideias dos demais, isso não é ideologia, não é autoritarismo? Acho que é um pecado intelectual, porque é considerar as pessoas um monte de patetas incapazes do menor raciocínio. Mais, não é esperar que as pessoas aceitem passivamente o mundo como está como se esse mundo fosse o próprio Jardim das Delícias? Varrer qualquer coisa pra baixo do tapete nas aulas de história e filosofia não vai resolver nada. É inclusive capaz de assim ativar a curiosidade de alguns alunos. O proibido é uma atração poderosa.

Por falar em comunismo, lembrei do Gore Vidal. Ele comentou assim a desinformação política dos americanos: “Vou lhe contar só uma historinha. Quando concorri ao Senado, em 1982, estava em Orange County [região ultraconservadora da Califórnia, perto de Los Angeles], e uma senhora se levantou, dizendo: ‘Senhor Vidal, tenho duas perguntas. O que eu, como uma dona de casa comum, posso fazer para combater o comunismo? E minha segunda pergunta é: o que é comunismo?’”.

Acho que o pessoal da escola sem partido devia seguir o exemplo dessa corajosa senhora. Chega de tocar de ouvido. Vamos conhecer as coisas antes de dar palpite.

Abre parêntese: não tenho medo do comunismo – como ter medo de uma coisa que nunca vi em lugar nenhum? Do capitalismo, sim, tenho medo – e bota medo nisso, porque o vejo em toda parte (inclusive na China, com seu capitalismo de estado tão selvagem quanto), com a ganância desmedida levando o planeta direto pros quintos. Fecha parêntese.

Por que responder os dois comentários que mencionei acima? Em primeiro lugar, ganho com facilidade alguns parágrafos. Uma coluna mais coxuda impressiona mais os incautos. Em segundo, não respondo a esses dois leitores, mas discuto uma posição que é de muitos outros leitores – ou “leitores”, quem sabe. Em terceiro, a brincadeira com a lógica é uma das minhas preferidas.

Um tal de Eduardo Ferreira Lopes acha que não entendi o projeto da escola sem partido. Diz que é “sem partido, não sem ciência”. Realmente, a interpretação de texto é um mistério mais profundo que a Santíssima Trindade. Se minha crônica tem o título de “Primórdios da escola sem partido”, estou aludindo ao quê? Pra começo de conversa, a preocupação que move o pessoal da escola sem partido hoje é semelhante à que moveu outros obscurantistas do passado. Cutucou o senso comum? Se não é bruxo, é comuna.

Não deu? Vamos adiante.

Se meus exemplos mostram que, dependendo do grau de tacanhice de uma ideologia, as provas científicas podem pouco, não se pode interpretar isso como uma simples recusa de ver a realidade mais prosaica? Outra coisa: esses exemplos são o exagero do exagero porque, alô, alô, marciano, estamos sendo irônicos aqui na Terra. Outra coisa ainda: exagero do exagero, mas a negação da evolução das espécies e a inexistência dos dinossauros fazem parte hoje da crença de muitos evangélicos. Então, Eduardo Ferreira Lopes, não tem alguma lógica esperar que esses evangélicos considerem a ciência um partido inimigo? Convença um evangélico desses de que os cientistas não manipulam as pesquisas apenas pra detonar a palavra do Senhor.

Um tal de Ezekyel Fernandez foi logo me chamando de arrogante. Como gostei muito do nome dele, um nome bíblico americanizado de forma macarrônica, abrirei aspas: “Ernani… Esse texto é tosco. Você diz que os ‘crentes’ como intelectuais não tem (sic) o teu respeito; você parece até se dizer um super intelectual (sic); parece até achar que está acima da média. Teu comportamento é típico de quem acha que é o dono da razão. E eu que ainda perdi alguns minutos do meu dia lendo isso”.

Em primeiro lugar, Ezekyel, acho bom você tomar cuidado com as reticências. Em matéria de pontuação, as reticências conseguem ser mais comprometedoras que os pontos de exclamação. As caixas de comentários são quase que uma fábrica de reticências.

Por que o Ezekyel usa a palavra crente entre aspas? Isso quer dizer que os crentes não existem? Que são crentes apenas na minha cabeça? Mas se um evangélico me jura que o mundo foi feito em seis dias e que o diabo existe, esse evangélico é um delírio meu? Talvez seja bom também tomar cuidado com as aspas, além das reticências.

Olha, eu conheço alguns evangélicos, até me dei ao trabalho de ler sobre eles. Daí que pergunto: o que devo fazer diante de gente que não só desconhece os rudimentos da história, da arqueologia, da biologia, da física e da lógica – nem falemos da psicologia, da psicanálise e da antropologia – como se nega a conhecer pra não sentir sua fé ameaçada? Acho que ninguém precisa ser um gênio pra não levar a sério a posição intelectual dessa gente, se é que a palavra intelectual cabe nessa situação. Talvez baste ter feito o fundamental direitinho, tipo passar com média seis.

Foi fácil? Então peguemos outro tipo de crente. Digamos aquele que acha que o mercado desregulado é a solução pra todos os males da economia. Se não estabelecermos regras claras e punições a quem quebrá-las, o mercado será regulado pela lei da selva, sendo o homem demasiado humano em toda parte. Precisa ganhar o Nobel de economia pra ver isso ou basta assistir um filme sobre a máfia? Aliás, o mundo não é governado pela lei da selva? O que houve em 2008? O que faz o mundo sob o domínio do capital financeiro e de conglomerados industriais, com armas, remédios e alimentação na ponta? O que me parece esquisito é que alguém, não sendo banqueiro ou algo assim, defenda uma bandeira dessas.

O Ezekyel dispara a mais surrada das críticas: devo me achar o dono da razão. Por que ele não argumenta? Por que não apresenta fatos em que estou errado e insisto em que estou certo? Por que nem tenta? Não é com pose de rainha da Inglaterra ofendida que se ganha discussão.

Quando um crente não se abala, apesar dos fatos contrários, das duas ou três, uma: se não é burro ou doente, lucra com isso.

Autor
Ernani Ssó se define como “o escritor que veio do frio”: nasceu em Bom Jesus, em 1953. Era agosto, nevava. Passou a infância ouvindo histórias e, aos 11 anos, leu seu primeiro livro sozinho:Robinson Crusoé. Em 1973, por querer ser escritor, entrou para a Faculdade de Jornalismo, que deixou um ano depois.  Em sua estréia, escreveu para O Quadrão (1974) e QI 14,(1975), publicações de humor. Foi várias vezes premiado. Desenvolve projetos literários para adultos e crianças.