O último solo

              "Ele nasceu pobre, morreu rico, mas nunca feriu ninguém ao longo do caminho." (Duke Ellington) No final …


 
 
 
 
 
 
 
"Ele nasceu pobre, morreu rico, mas nunca

feriu ninguém ao longo do caminho."

(Duke Ellington)
No final do século 19, em um lugar dos Estados Unidos ainda se ouviam tambores rituais de Voodoo, tocados por escravos. Enquanto o resto do país dançava ritmos importados da Europa, um novo som emergia no French Quarter, em New Orleans, no delta do Mississipi. Eram músicos brancos, mulatos e negros, soprando trompetes, trombones e clarinetas, comprados por poucos dólares em lojas de penhores. Mas eles ainda não sabiam que estava nascendo a nova música da América.

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Passaram-se anos antes que fosse decifrado o real significado daquele encontro dos tambores africanos com os metais das antigas bandas militares. Para os descendentes dos escravos, era o som de um hino de libertação. Para os brancos, filhos e netos de franceses e ingleses, a evocação da cultura colonial afro-caribenha. Nascia o New Orleans Jazz, um ritmo ao mesmo tempo selvagem e devocional, melancólico e festivo, tocado em celebrações e funerais. Música para tirar pessoas de casa para dançar nas ruas, em plena luz do dia e no meio da semana, sem esperar por domingos ou dias de festa.
No início deste século XXI, quando se comemorou 100 anos do Jazz, os historiadores ainda pesquisavam suas raízes e origem. No entanto, como não se sabe nem como surgiu a palavra Jazz (ou Jass na versão mais remota), o recurso foi identificar a banda que pela primeira vez, tocou o novo ritmo. Alguns sugerem o ano de 1895, quando Buddy Bolden, montou seu quinteto de metais. Outros preferem 1917, o ano em que Nick LaRocca e seu Original Dixieland Jazz Band gravou "Livery Stable Blues", considerado o primeiro disco de Jazz. O célebre Ferdinand "Jelly Roll" Morton, um dos primeiros pianistas a aderir ao novo ritmo, concorda com a data, mas recusa paternidades:
"- Nunca digam que o Jazz foi inventado.

Ele é um ser vivo. Cresce, morre, muda,

mas continua o mesmo."
Para alguns estudiosos, o jazz de New Orleans está para a música, o como o Mississipi está para a América - assim como vários afluentes desaguam e formam um grande rio, o encontro das culturas negras, crioulas e europeias criou a genuína música norte-americana. Mas, antes de chegar às grandes cidades do Norte e do Leste, o Jazz ainda sofreria influências caribenha e latina, pela mão de pioneiros como Louis "Papa" Tio, um descendente de mexicanos e jamaicanos, que formou uma leva de grandes clarinetistas que, por sua vez, influenciaram gigantes como George Baquet e Sidney Bechet. Pouco depois, surgia o mais famoso de todos, Louis Armstrong.

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Quando tinha 11 anos, Louis Armstrong deixa a escola para juntar-se a um quarteto de meninos que cantava por moedas nas ruas do French Quarter. Em breve, ele seguia atrás das Brass bands e ouvia os velhos trumpetistas Bunk Johnson, Kid Ory e, principalmente, Joe "King" Oliver. Ele adota o jovem e se torna seu protetor e mestre, ensinando a arte de tocar trumpete. Mais tarde, o faz ingressar nas bandas que tocavam nos barcos que navegavam pelo Mississipi. Em sua auto-biografia, o músico descreveria a experiência como "minha universidade de Jazz".
Louis Armstrong nunca recordaria aqueles anos difíceis com amargura. Mesmo no fim de sua longa e brilhante carreira, lembrava:
"- Cada vez que fecho os olhos e toco meu trompete,

volto ao coração da velha New Orleans.

Então, ouço ?King? Oliver soprar sua corneta pela última vez,

antes de me despachar para o Mississipi."
Compositor, trompetista e cantor, ele foi o protótipo do músico negro e pobre que venceu todas as etapas do big business musical, para se transformar em embaixador do jazz. Uma trajetória que cobre cinco décadas, dos anos 20 até os 60, em um tempo em que a América era uma sociedade racialmente dividida. No entanto, a cor da pele de "Satchmo" era esquecida diante do seu irradiante carisma nos shows ao vivo e na tela dos cinemas. Suas performances impecáveis eletrizavam o público, lhe concedendo acesso aos mais exclusivos círculos da sociedade norte-americana.
Até pouco tempo antes de sua morte, em 1971, ele continuava atuando no cinema, teatro, rádio e TV. Coroando uma brilhante carreira, foi escolhido pelo Departamento de Estado para fazer turnês de goodwill na Europa, África e Extremo Oriente. Como "Ambassador Satch", tocou seu trompete para multidões que nunca haviam ouvido um som igual ao Jazz.

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Quando estava no Egito, depois de ser aplaudido delirantemente no Cairo, Louis Armstrong, acompanhado de sua mulher Lucille Wilson, foi levado em visita ao Vale dos Reis. Em certo momento, o músico lembrou que estavam em 10 de abril, o dia da morte de Joe "King" Oliver, o velho músico que o ensinara tudo sobre o Jazz.
Em um gesto impulsivo, Louis Armstrong retira seu trompete do estojo e, em pleno deserto, toca "When The Saints Go Marching In" diante de uma silenciosa Esfinge. A única foto daquela sessão de Jazz, tirada por um espantado turista, acabou na capa da LIFE e se transformou em um ícone do século XX.

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Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.

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