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A honra através dos tempos

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Aldous Huxley, numas notas sobre a personalidade: “Antes a morte que a desonra. Mas a honra é como a saia das mulheres. Usa-se curta, usa-se comprida, usa-se larga, usa-se justa, com anáguas, sem calcinha. Até 1750, era de se esperar que nos sentíssemos como de fato nos sentíamos, mortalmente desonrados, se víssemos um sujeito beliscando a bunda de nossa irmã. Nossa indignação era tão intensa que trataríamos de matá-lo. Hoje, a nossa honra emigrou das partes carnudas da anatomia de nossas parentas e tem sua sede em outros lugares. E assim por diante, indefinidamente”.

A fé, segundo Aldous Huxley

“A fé é apenas a estupidez organizada e dirigida. Pode ser que remova uma ou duas montanhas em virtude apenas de cabeçadas insistentes; mas usa antolhos e não pode ver que, ao mover montanhas, não as destrói, somente as muda de um lugar para outro. Para ver isso é preciso inteligência; mas a inteligência adianta pouco, porque ninguém se entusiasma por ela; ela está à mercê do primeiro Hitler ou Mussolini que apareça – de quem quer que possa despertar entusiasmo; e pode-se despertar entusiasmo por ‘qualquer’ causa, por mais idiota e criminosa que seja.”

Observatório político

A política brasileira pode ser dividida entre os bufões, os canalhas e os incompetentes. Às vezes um político consegue estar nas três categorias com a mesma desenvoltura. Os que não se enquadram nessa classificação são tão poucos que não sei se vale a pena levar em conta.

Deu no jornal 1

Banqueiros europeus chiaram contra a ideia de corte dos bônus. Além da delação premiada, há a incompetência e a roubalheira premiadas. Eu, idiota, espero a Bolsa-honestidade e o Vale-foda.

Deu no jornal 2

O anúncio das bombas supositório aumentou o medo do terrorismo. Mas, vai ver, devemos ter esperança. Pode ser que muitos terroristas, ao se preparar para o atentado, descubram o sentido da vida e resolvam viver em paz.

Bandalheiras romanas

A série Roma deixou muita gente com a boca mais aberta do que bacalhau na peixaria, como diria o Louis Robert Stevenson. É que se pensava que o vale-tudo sexual fosse uma invenção da televisão dos dias de hoje. Ou pelo menos uma tia minha pensava.

O cristianismo trouxe uma coisa boa, mesmo que tenha plagiado de outras religiões, junto com rituais, festas e até datas: a ideia de que a vida é valiosa, que deve ser respeitada, que a bondade tem a força. Claro que pra fazer essa ideia valer os cristãos não consideraram valiosa nem respeitável a vida de seus opositores, nem a de muitos aliados que atrapalharam ambições pontuais. Nada de surpreendente. Esse parece ser o esquema, sempre.

Mas o cristianismo é culpado por apostar tudo no outro mundo e criminalizar o corpo e suas funções. Apostar no outro mundo é um lance esperto pra driblar este, ou idiota, doente e covarde? No mais, enquanto as pessoas não se sentiram culpadas por ter sede até de água, nem falo de cerveja ou vinho, os cristãos não apagaram o facho, diga-se, com trocadilho e tudo. É uma pena. Os pagãos só precisavam descobrir o pudor.

Fidel Castro

Fidel morreu de velhice, não graças a um dos 637 atentados que sofreu. Talvez isso não se chame sorte. Talvez isso se chame incompetência da espionagem americana. Talvez isso se chame competência da espionagem cubana. Ou, o mais provável, uma mistura de tudo.

Comentei aqui mesmo, meses atrás, minha estranheza a respeito do histórico de Fidel e presidentes americanos. Fidel, considerado brutal por tanta gente, como Trump há dias, jamais tentou matar um presidente americano. Os presidentes americanos, a quem ninguém se envergonha de apertar a mão, tentaram matar Fidel centenas de vezes. Como isso é justificável pra muitos candidatos ao Nobel da Paz feito filósofos do calibre de um Bolsonaro, lembro que Fidel nunca invadiu um país nem despachou pro beleléu dois milhões de pessoas, civis em sua maioria, na defesa do lucro do seu complexo industrial e financeiro, mas mesmo assim é considerado pior que um Bush, que por sinal teve o apoio da santinha Hillary.

Querem uma moral pra essa fábula? A matemática ética é um caso mais complicado que suruba de ouriços.

Autor
Ernani Ssó se define como “o escritor que veio do frio”: nasceu em Bom Jesus, em 1953. Era agosto, nevava. Passou a infância ouvindo histórias e, aos 11 anos, leu seu primeiro livro sozinho:Robinson Crusoé. Em 1973, por querer ser escritor, entrou para a Faculdade de Jornalismo, que deixou um ano depois.  Em sua estréia, escreveu para O Quadrão (1974) e QI 14,(1975), publicações de humor. Foi várias vezes premiado. Desenvolve projetos literários para adultos e crianças.

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