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O lado bom do Temer

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Ontem, ao ver a cara do Temer na internet, me lembrei de um desenho que mostrava um pirata com a perna direita de pau, a mão direita de gancho e o olho direito vendado. A legenda: todo mundo tem seu lado bom – o deste pirata é o esquerdo.

O Temer, como todo mundo e como o pirata do cartum, deve ter seu lado esquerdo, por mais improvável e remoto que seja. Assim, na bucha, só me ocorre a lealdade. Dizer que o Temer traiu a Dilma é besteira – carrapato não é amigo do cachorro, a serventia do hospedeiro é temporária, sabe-se. Com seus velhos parceiros ele foi leal. Como foi!, aliás – o fato de que esses parceiros tenham um prontuário mais grosso que a Bíblia não o impediu de lhes dar ministérios. Quando esses parceiros foram pegos em flagrante, ele relutou até o último segundo a despedi-los – e isso não foi uma ou duas vezes, note-se. Qualquer outro, pra tirar o seu da reta, não teria pensado duas vezes. Não é comovente?

Pena que o lado bom do Temer não seja o talento literário. Os versos dele, como é de conhecimento até do mundo mineral, como diria Mino Carta, são tipo dois neurônios. Até aí morreu o Neves, depois de um chá na Academia de Letras. Escrever idiotices chapadas pode acontecer com qualquer um, confere? Mas espera aí. Isso não revela outra parte do lado bom do Temer? Claro, a coragem. Só uma pessoa muito, mas muito corajosa, além de escrever aquelas inanidades, pode publicá-las.

Sei, vão argumentar: ele é vaidoso. É, mas não tanto como dizem. Se fosse realmente vaidoso, teria se preservado, queimando o livro. Ou não? Vai ver, não foi por coragem que publicou, foi só falta de noção mesmo.

Pra falar a verdade, não entendo por que a grande imprensa, com sua inquebrantável vocação pra bajulação, não festejou a lealdade do Temer todos os dias. Preferiram investir na Marcela. Sim, na Marcela, ou a Marcela não é mostrada como uma espécie de graça na vida do Temer? Como um velho de boca torta, com a indefectível pose de mordomo de filme de terror, como foi descrito certeiramente, tê-la-ia conquistado? Assim mesmo, com mesóclise. Se a Marcela se casou com ele é óbvio que ele tem algum encanto. Pra grande imprensa isso basta: a Marcela é o lado bom do Temer.

Ao concluir isso, me preocupei. Como anda a relação do casal? Imagino que a Marcela não se interessou apenas pela conta bancária do mordomo, digo, do poeta, digo, bom, do vocês sabem quem. Jovem, bonita, de família razoavelmente bem situada, na certa tinha pretendentes menos improváveis ou escalafobéticos. Descarto alguma fixação em figuras paternas ou avoengas – conheceram, papudos? Só uma palavra como avoengo pra rebater uma mesóclise. Mas o que era mesmo que eu ia dizer? Enfim, se deixamos a explicação da psicanálise de boteco de lado, o que sobra? O velho e bom fascínio pelo poder, quem sabe. O poder é o rabo do pavão aberto em leque. Dependendo da luz do dia, ofusca muita gente.

Se a Marcela apostou num sonho intenso, em que nossos campos têm mais flores e em nosso céu, risonho e límpido, o Cruzeiro resplandece, o que aconteceu em sua cabeça, por mais oca que possa ser, quando soaram as primeiras vaias? Será que tinha alguma ilusão de aclamação, fora do grupo de cúmplices do impeachment? Como ela o recebeu quando ele, com o rabo entre as pernas, fugiu dessas vaias? Não se pode confiar na gentalha, né mesmo?

Mas isso é pinto, como dizia minha avó. Melhor perguntar o que a Marcela fez com as revelações de que o marido tem o rabo preso, há décadas, em diversas ratoeiras? O que fez ao ver o marido se cercar de assaltantes notórios? Nega a desonestidade com fé de cruzado ou, como aquela personagem do Machado de Assis, se diverte com as notícias que falam mal do marido político?

Enfim, por mais refratária que a Marcela seja à realidade, me parece que ficou evidente que o marido lucraria mais se tivesse continuado no papel decorativo de vice. Como vice, ele poderia alimentar sem perigo a imagem de homem probo, de jurista culto, de político hábil, de estadista mal aproveitado num mundo injusto. Agora é tarde. Agora ele chega em casa, todo dia, enxovalhado até pela imprensa que ontem ainda o tratava como o “florão da América”.

E aí, o que a Marcela faz? Oferece uma bebida forte? Um escalda-pés? Canja com pãozinho torrado? Faz cafuné no depósito de brilhantina? Trata-o com algum apelido íntimo, no diminutivo?

Haja amor!

É difícil acreditar que o glamour, se houve, não tenha sido arranhado. É difícil acreditar que amigas e conhecidas mantenham ingenuidade ou cinismo e discrição totais. É difícil acreditar que os coleguinhas do filho não tenham se comportado como os coleguinhas costumam se comportar quando sentem cheiro de sangue. É difícil acreditar que a Marcela ainda se impressione com citações em latim.

Não penso nada disso de forma vingativa. Mas não tenho pena. Como qualquer ficcionista de meia tigela, consigo me pôr na pele da Marcela e intuir o que se passa. Daí sinto a solidariedade que sinto por qualquer pessoa metida numa enrascada. Só não consigo ir mais longe. Se a Marcela está dodói, se está preocupada com o filho, está porque fez uma opção tempos atrás. Ela teve a chance de optar. Multidões de brasileiros não têm chance alguma de optar por nada, nem se vão jantar ou não.

Autor
Ernani Ssó se define como “o escritor que veio do frio”: nasceu em Bom Jesus, em 1953. Era agosto, nevava. Passou a infância ouvindo histórias e, aos 11 anos, leu seu primeiro livro sozinho:Robinson Crusoé. Em 1973, por querer ser escritor, entrou para a Faculdade de Jornalismo, que deixou um ano depois.  Em sua estréia, escreveu para O Quadrão (1974) e QI 14,(1975), publicações de humor. Foi várias vezes premiado. Desenvolve projetos literários para adultos e crianças.