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Bolos, magos e catedrais

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Os antigos moradores de Colônia, na Alemanha, acreditam que sua catedral está sob a proteção de três entidades bíblicas, que desde 1164, repousam em uma majestosa arca de prata e ouro, colocada atrás do altar principal. Quando algum incrédulo balança a cabeça, eles lembram a noite de 30 de maio de 1942, quando mil aviões bombardeiros ingleses e norte-americanos despejaram toneladas de explosivos sobre a cidade. No centro de incêndios, cinzas e escombros, a majestosa catedral gótica permanecia incólume.

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O Novo Testamento dá o nome das três entidades: Gaspar, rei do antigo império de Markash (dizem que tinha cabelos negros e olhos castanhos), Balthazar, rei da Núbia (pele escura e brilhante) e Melchior, soberano de Lagash, (de olhos amendoados e espessa barba). Esta trindade viajou do Oriente até a Judéia, trazendo ouro, incenso e mirra para um menino nascido em uma manjedoura. As lendas medievais contam que, séculos depois, seus restos mortais foram descobertos em Constantinopla, por Cavaleiros Cruzados, que os transportaram para Milão. No século X, o imperador alemão Frederich Barbarossa saqueou a cidade e transferiu os magos do Duomo para Colonia, que em pouco tempo, se transformou no mais importante centro de peregrinação da Alemanha. A construção da atual catedral começou em 1284 e demorou mais de 600 anos. Ao ser concluída, em 1880, era o prédio mais alto do mundo.

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Além de atrair peregrinos, os Reis Magos inspiraram ritos de adoração em toda a Europa. O confeiteiro de Luís XIV criou um doce especial, o Gâteau des Rois, com ingredientes que simbolizavam os presentes oferecidos ao Menino Jesus: ouro na crosta brilhante; incenso no aroma de especiarias e mirra, nas frutas cristalizadas. A tradição reza que o bolo deve conter uma fava seca e uma miniatura em porcelana de um rei. Quem os encontrar terá um ano abençoado. Da França, o doce viajou a Portugal, pela Provence, Gasconha, Languedoc e Catalunha, onde se chamava Tortell de Reis, e na corte de Madrid, Rosca de Reyes. Os confeiteiros portugueses adotaram a receita no final do século 19. Em Lisboa, o Bolo Rei era feito na Confeitaria Nacional, que ainda existe e produz a iguaria a cada ano. Seu endereço é bem conhecido dos lisboetas: Praça da Figueira, esquina com a Rua dos Correeiros.

Seja qual o nome, Gâteau des Rois, Rosca de Reyes ou Bolo Rei, poucos doces carregam tantas lendas e estórias. Sua origem teria sido o bolo confeitado, criado pelo príncipe romano, Cesare Frangipane. A iguaria era tão apreciada, que Catarina de Médici incluiu a receita em seu enxoval, quando deixou Florença para casar com Henrique II, futuro rei de França.

O Gâteau des Rois era consumido avidamente em Avignon, quando a sede da Igreja Católica foi transferida de Roma para o sul da França. No século 16 os confeiteiros de Paris disputavam ferozmente o título do melhor Gâteau da cidade. Na Revolução Francesa, após decapitarem Luís XVI, os revolucionários proibiram o nome ‘des Rois’ rebatizando-o de Gâteau des Sans-Culottes. O mesmo aconteceria mais tarde, em Portugal, quando da abolição da monarquia. Receosos do fanatismo republicano, as confeitarias o rebatizaram de Bolo de Ano Novo enquanto outros o exibiam nas vitrinas como Ex-Bolo Rei.

Em meados do século passado, as colônias lusitanas no Brasil incluíram o Bolo Rei nos ritos do 6 de janeiro. Era um bolo simples, mas com muito simbolismo – de massa levedada, em formato redondo, com um buraco no centro, onde se colocava a antiga coroa românica. Leva frutas cristalizadas, uva passa, casca de laranja ralada, pinolis, nozes, amêndoas picadas e uma generosa dose de vinho do Porto.

No interior de Portugal, nas casas com moças solteiras, ainda se usa colocar uma aliança de ouro dentro da massa do bolo. A felizarda que encontrar o mimo tem casamento à vista…

(Com J.A. Dias Lopes, Veja).

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Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.