Cuidado, há um Sidnei perto de todas nós

Cuidado, habita um Sidnei no seu edifício, no apartamento do andar de cima. Cuidado, trabalha um Sidnei na repartição, na seção ao lado da …

Cuidado, habita um Sidnei no seu edifício, no apartamento do andar de cima. Cuidado, trabalha um Sidnei na repartição, na seção ao lado da sua e cruza diariamente com as mulheres do local. Cuidado, um Sidnei frequenta as festas de aniversário, mesmo as familiares (ele pode ser um convidado e não necessariamente pertencer ao círculo mais íntimo) e parece até inofensivo. Cuidado, um Sidnei foi visto nas aulas da faculdade de sua filha. Cuidado, existe um Sidnei dentro de muitos lugares conhecidos e destila suas piadas infames, suas impressões nojentas e apresenta, com insistência, suas opiniões machistas e misóginas.
Tipos, como o Sidnei, que matou 12 pessoas da mesma família em uma festa de réveillon, em Campinas (São Paulo), inclusive a sua ex-mulher, Isamara Fillier, 41 anos, existem em todos os cantos do Brasil. São mais comuns do que se poderia imaginar. Não se trata de um personagem fictício endoidecido ou de uma minissérie passada no horário nobre da televisão. Homens, como o Sidnei ainda proliferam. Eles dizem, mesmo que em tom de brincadeira (mas no fundo não é brincadeira), que lugar de mulher é pilotando fogão. Disparam que menina não brinca de luta, não grita e não diz palavrão. Duvidam da inteligência de uma mulher se ela é bonita. É o marido que grita em alto e bom som que quem manda ali é ele.
Portanto, muito cuidado. Há um Sidnei perto de todas nós matando mulheres e propagando o machismo, o preconceito e a discriminação. Em pleno 2017, ainda vivemos sob o medo da violência de gênero. Somamos conquistas importantes, mas continuamos a conviver com uma sociedade marcada pelo machismo e misógina. De um modo geral, as mulheres ainda são culpadas pela violência cometida contra elas. São estupradas e a culpa recai sobre elas porque usaram roupas curtas. São agredidas e culpadas porque provocaram. Se a violência é doméstica, o motivo é porque não escolheram corretamente o marido.
Todo o dia, mulheres são assassinadas por homens e a culpa continua sendo delas. Sinceramente, sonhei várias noites que estes crimes não aconteceriam mais. Hoje, ando sonhando muitas noites com o momento em que os verdadeiros culpados, os estupradores, os espancadores, os assassinos, serão realmente considerados culpados pela maioria esmagadora da população e não somente pelas feministas.
E para quem acreditou, como o assassino Sidnei deixou escrito na carta, que o feminismo foi a sua motivação para cometer o crime, é preciso reforçar que o feminismo não mata. Ele não entra na casa de uma mulher e mata 12 pessoas (nove mulheres). Ele não estupra. Ela não violenta. Ela não assassina. O que mata, estupra, agride, violenta e termina com a vida das mulheres é a misoginia, o preconceito, a discriminação, o machismo e a dificuldade que alguns homens têm de aceitar que as mulheres estão alcançando espaços iguais na sociedade.
O crime cometido pelo Sidnei de Campinas é um feminicídio. Está previsto na legislação desde a entrada em vigor da Lei nº 13.104/2015, que alterou o artigo 121 do Código Penal para prever o feminicídio como circunstância qualificadora do crime de homicídio. Assim, o assassinato de uma mulher cometido por razões da condição de sexo feminino, isto é, quando o crime envolve: "violência doméstica e familiar e/ou menosprezo ou discriminação à condição de mulher".

Autor
Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Famecos/PUCRS, militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editoriais de economia e geral, e em assessorias de comunicação social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em antologias, diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RS (Sindjors), e segunda secretária do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA). Tem o blog marcinhaprodigio.blogspot.com. É mãe da Gabriela e avó do canino shih tzu Dalai.

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