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Despedidas

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despedidas

“- Eu anuncio uma vida abundante, veemente, espiritual, ousada;

Eu anuncio um caminho luminoso e alegre à sua frente;

Anuncio miríades de jovens, belos, gigantescos, de sangue doce;

Anuncio uma raça de velhos esplêndidos e selvagens.

Queridos amigos, quem quer que vocês sejam, não me esqueçam.

Eu me sinto como quem fez o trabalho do dia

e que pode se retirar por algum tempo.

Sobre mim, adeus!”

(Walt Whitman, 1819 – 1892)

Por uma destas coincidências que ninguém procura nem quer entender, no mesmo dia em que o presidente Barack Obama pronunciava seu discurso de despedida em Chicago, chegava às livrarias de Washington, uma nova biografia do presidente Dwight Eisenhower, onde o ponto focal é o famoso discurso de 17 de janeiro de 1961, quando ele se despedia da presidência. Discursos de despedida dos presidentes norte-americanos são poucos – mas alguns, se tornaram memoráveis, como o de George Washington, em 1796. Ao abdicar de um terceiro mandato, ele definiu a transição pacífica como um rito fundamental da passagem de poder da presidência.

Dwight Eisenhower era um conhecido estudioso da biografia e dos discursos de George Washington, inclusive sua célebre declaração de despedida, da qual decorara parágrafos inteiros, repetindo que eram máximas que se cristalizariam como dogmas da democracia moderna:

“Se a liberdade de expressão nos for retirada,

então, silenciosos e obedientes poderemos ser guiados,

como ovelhas para o matadouro.”

Cem anos depois, o Congresso norte-americano instituiria um rito que dura até nossos dias. No aniversário de Washington, 22 de fevereiro, é lido, no plenário do Senado, seu discurso de despedida. Em 32 páginas, escritas à mão, o presidente recomendava que os americanos evitassem excessivas paixões partidárias e discriminações regionais. Na política externa, adverte contra as alianças de longo termo com nações estrangeiras. Além de Washington e Eisenhower, outros presidentes não tiveram a oportunidade, de deixar despedidas consideradas como históricas. Franklin Delano Roosevelt e John F. Kennedy morreram no cargo. Richard M. Nixon deixou a Casa Branca acossado por escândalos. As despedidas de Lyndon Johnson e Jimmy Carter foram carregadas de mágoas e distantes de alcançar o patamar de memoráveis. Quando chegou a vez de Ronald Reagan, ele confessou que seus sentimentos eram amargos e doces. O que a mídia imediatamente traduziu como a amargura de deixar o Poder e a doçura de ir descansar em seu rancho na Califórnia. Já os presidentes Bill Clinton e George W. Bush repetiram sentenças de otimismo, mesmo diante do quadro ameaçador do terrorismo. Em 1961, Eisenhower falou de sua mesa no Oval Office em uma transmissão de TV em preto-e-branco.

Mas seu texto foi duramente trabalhado por meses, como mostram os quase 30 rascunhos, cuidadosamente conservados na Eisenhower Library. O discurso de Eisenhower permaneceu atual, porque se dedicava menos nas realizações de governo e mais nas recomendações sobre a contribuição de cada cidadão na preservação da Democracia. Ele praticamente repetiu as palavras de George Washington em 1796, que afirmava que, a Democracia está em risco justamente quando parece firme e sólida:

“- Vocês e eu, meus caros cidadãos, precisamos ser fortes

em nossa fé que todas as nações, sob a proteção de Deus,

alcançarão Paz com Justiça.

Que sejamos inabaláveis na devoção aos nossos princípios,

confiantes, humildes, com força e diligência na busca dos grandes

objetivos de nossa Nação.”

***

O discurso de Obama em Chicago aconteceu em condições semelhantes à despedida de Eisenhower. Ambos falaram a uma nação dividida, após uma tumultuada eleição e com a mídia focada quase que exclusivamente nos gestos e atos dos presidentes que estavam por assumir – John F.Kennedy e Donald Trump. Obama usou seu carma e recursos de oratória diante de um ginásio lotado de ardorosos simpatizantes. Até mesmo um grande jornal, que fustigava criticamente seu governo, foi levado a reconhecer que a despedida usou de sinceridade e carisma, permanecendo distante dos apelos demagógicos:

“Ele se despediu com informalidade e autenticidade.

Se relacionou com o povo norte-americano, não com uma voz de poder,

mas com a humildade de uma conversa entre iguais.

O que fica é a afirmação que seu convívio com pessoas comuns

o manteve honesto, fazendo dele um presidente

e um homem muito melhor.”

***

Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.