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Ligações perigosas

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Vi no centro de Porto Alegre a placa de uma loja: Varejão Evangélico. Vi o anúncio de uma massagista nos classificados de um jornal: Sessentona de Cachoeirinha. O que será que o Varejão Evangélico vende que outros não vendem? Se a moda pega, logo teremos produtos orgânicos evangélicos, refrigerantes zero açúcar e zero tentação, tudo benzido ainda por cima. Isso me lembra de uma campanha bolada por um amigo meu, a Coleção Nosferatu Infantil, com brinquedos pra Romênia. Mas um caderno em forma de ataúde e um lápis que também serve de estaca, ou pasta de dente com sabor de sangue, não dão pra saída, convenhamos.

Quanto à Sessentona de Cachoeirinha, ela diz que faz o diabo a quatro, até inversão. Eu, um marmanjo velho, não tenho ideia do que seja essa tal de inversão, mas temo que a coisa acabe em torcicolo ou numa crise de ciático ou mesmo numa bacia deslocada. Depois talvez dê para brincar de adeus às armas, quer dizer, de paciente e enfermeira. De qualquer forma incluí a dita inversão na minha lista de alegrias da melhor idade.

Senti, de um modo obscuro, que há uma ligação entre o Varejão Evangélico e a Sessentona de Cachoeirinha. Mas qual, além da óbvia promessa de uma realização intangível? Será que a Sessentona é tia do dono do Varejão? Não sei. São misteriosos os caminhos do Senhor.

Humoristas

Acho que foi Nietzsche que disse que os humoristas assobiam pra se distrair do medo do escuro. Pode ser. Mas…

Os filósofos, na tentativa de acender a luz, criam sistemas intrincadíssimos, num palavrório mais intrincado ainda. Resultado: a única coisa que fica clara é o próprio filósofo – suas astúcias e limitações, vaidades, sonhos, perplexidades. Nietzsche batendo no peito e esbravejando pela vinda do super-homem é o quê? Um anão, em cima de um banquinho, querendo que a escuridão o confunda com um gigante de dois metros. Talvez seja menos constrangedor assobiar.

Os cientistas vão mais longe. A escuridão essencial continua com a mesma intensidade e o medo dela também, pelo menos até agora, mas vários pontos em que a gente tropeçava foram localizados e até ganharam um adesivo luminoso que qualquer um pode ver. Ou você ainda prefere acreditar que os trovões se devem às marteladas de Tor ou a São Pedro jogando boliche?

Os religiosos admitem a escuridão pra dizer que no fim um patriarca de uma tribo primitiva, de ferozes barbas brancas, vai acender a luz. Ou religiosos que, sentindo-se muito mais inteligentes que seus pares, dispensam o patriarca e nos apresentam uma força superior. Não quero parecer engraçadinho, mas sempre que se fala em força superior me lembro da força da gravidade ou vejo uma espécie de Professor Xavier, o chefe dos X-men, pairando no ar, com os olhos fechados, ordenando o caos e a indiferença do mundo. Se ele parar, vai tudo pro beleléu.

Bom, isso é trocar um cabeludo barbudo por um careca imberbe. Ou a força superior é energia pura e abstrata? Pode ter um ar mais científico, mas é menos fotogênica. O problema segue sendo estatístico: as vítimas do caos e da indiferença do mundo crescem sempre, mesmo com o patriarca sofrendo os efeitos colaterais da endropausa ou a energia tão bem ilustrada por efeitos especiais de Hollywood.

Mas – lá vêm as reticências do primeiro parágrafo. Não conheço nenhum Humorista, nenhum Filósofo, ou Cientista, ou Religioso. Só conheço pessoas, que podem ser tudo isso ao mesmo tempo, ou ser mais bem humoradas ou religiosas com pitadas das demais tendências.

Autor
Ernani Ssó se define como “o escritor que veio do frio”: nasceu em Bom Jesus, em 1953. Era agosto, nevava. Passou a infância ouvindo histórias e, aos 11 anos, leu seu primeiro livro sozinho:Robinson Crusoé. Em 1973, por querer ser escritor, entrou para a Faculdade de Jornalismo, que deixou um ano depois.  Em sua estréia, escreveu para O Quadrão (1974) e QI 14,(1975), publicações de humor. Foi várias vezes premiado. Desenvolve projetos literários para adultos e crianças.

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