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Lula, The Nine

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Segundo Ricardo Noblat, o juiz Sérgio Moro, o Fura-teto, chama Lula de Nine entre os amigos. Me lembrei de Alonso Fernández de Avellaneda, que, além de roubar os personagens de Cervantes, fez acusações pesadas a ele. Cervantes disse que não ia se vingar nem nada, mas comentou: “O que não pude deixar de sentir é que me taxasse de velho e maneta, como se estivesse ao meu alcance ter detido o tempo, para que não passasse por mim, ou se eu tivesse perdido a mão em alguma rixa de taberna”. Sabe-se que Cervantes levou um tiro de arcabuz na mão esquerda, durante a batalha de Lepanto.

Como Avellaneda entrou para a História como um bestalhão ressentido e Cervantes como um dos gênios da literatura – mais humano que Shakespeare e Goethe, segundo Paulo Hecker Filho –, apenas um que outro Homer Simpson acha graça na tirada sobre o defeito físico de Cervantes. Aposto que até o Moro está contra Avellaneda. Vou mais longe. Aposto que até o Ronaldo Caiado e a Bia Kicis estão contra Avellaneda, no caso, remoto, de saberem quem foi Avellaneda.

Sim, quatrocentos anos depois é fácil ficar contra. É fácil inclusive considerar uma baixaria, coisa de barraqueiro com dois neurônios. Como daqui a quatrocentos anos não restará nem um grão das minhas cinzas, pergunto agora: por que a sanha contra o dedo que Lula perdeu? Como Cervantes, ele não o perdeu numa rixa de taberna. Não há nada de desonroso em perder um dedo ou a mão ou o braço num acidente de trabalho. Se há desonra, é da empresa que não tem segurança, confere?

Não é estranho que um Ronaldo Caiado – uma voz em busca de um cérebro, como dizem –, ou uma Bia Kicis – por falta de um exorcista de plantão – achem graça. Mas o Moro? Esperava-se pelo menos uma dignidade de fachada – ele não desmentiu o Noblat, ou desmentiu? Se bem que depois de perder a linha e berrar como numa discussão de trânsito, em plena sessão no tribunal, pode-se esperar qualquer coisa. Minha suspeita de o juiz ser uma pessoa insegura parece se confirmar com os estrilos contra os advogados de defesa ao não vê-los se intimidarem com seus carteiraços.

Por que um dedo perdido num acidente de trabalho seria um estigma? Não é mais grave fazer gravações ilegais e vazá-las também ilegalmente (e seletivamente, sistematicamente e vá saber se outros mentes)? Não é mais grave abrilhantar eventos do PSDB, patrocinados por políticos envolvidos em negócios escusos? Não é mais grave receber prêmios de uma empresa que nasceu de uma falcatrua e vive delas? Não é mais grave trocar gracinhas e sorrisos com um multidenunciado? Não é mais grave multipremiar ladrões contumazes pra dizerem apenas o que se quer ouvir e ainda achar que isso faz bem à democracia? Não é mais grave ser suspeito de vender a pátria ao império gringo? Não é mais grave receber salário acima do estabelecido por lei e posar de paladino contra a corrupção? Afinal, perder um dedo num acidente não depende da ética de uma pessoa, no máximo pode-se atribuir a um descuido. Então, me parece que cabe uma perguntinha bastante infantil: por que Caiado, Kicis e Moro não fazem piadas com esses desvios morais?

Vinte e sete testemunhas de acusação ouvidas pelo Moro se transformaram em testemunhas da defesa. Mas não vem ao caso. Lula tem nove dedos.

Lula tirou quarenta milhões de pessoas da miséria absoluta e botou o Brasil no mapa mundial. Não vem ao caso. Lula tem nove dedos.

Como se disse num editorial do Globo, política para os pobres não justifica a roubalheira. Sim, não justifica. Só precisa acrescentar uns detalhes: os FHCs da vida não fizeram nada pelos pobres e empilharam casos de roubalheira descarada na não por nada chamada privataria; hoje, depois de tantas delações, fica complicado afirmar que os partidos da elite são formados apenas por anjos; hoje, que escancarou geral, a elite não pode mais posar de honesta e sábia – na verdade nunca ficou mais evidente sua voracidade e burrice, ou não é burrice o parasita que mata o hospedeiro? Não vem ao caso, Lula tem nove dedos.

Lula, como todo mundo, cometeu erros. Por que não criticam esses erros? Por que insistem nos nove dedos? Assim fica parecendo que os críticos não têm a que se agarrar.

Lula cometeu falcatruas? Então apresentem as provas, porque só ter convicções e apontar nove dedos parece coisa da Rainha de Copas. Sim, aquela que, na história da Alice, apenas olha pra alguém e diz: “Cortem-lhe a cabeça!”.

Eu tenho várias críticas ao Lula. Pra começo de conversa, por que ele seguiu dando dinheiro pra uma imprensa absolutamente venal? Por que ele deixou os bancos faturando sem lenço e sem documento? Talvez ele alegue que teria sido corrido em dois meses se tivesse peitado esses canalhas e daí não teria conseguido fazer nada. Tem lógica, mas eu não aguento mais ver essa gentalha se pavoneando por aí.

Autor
Ernani Ssó se define como “o escritor que veio do frio”: nasceu em Bom Jesus, em 1953. Era agosto, nevava. Passou a infância ouvindo histórias e, aos 11 anos, leu seu primeiro livro sozinho:Robinson Crusoé. Em 1973, por querer ser escritor, entrou para a Faculdade de Jornalismo, que deixou um ano depois.  Em sua estréia, escreveu para O Quadrão (1974) e QI 14,(1975), publicações de humor. Foi várias vezes premiado. Desenvolve projetos literários para adultos e crianças.