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Pablo & Paul

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pablo e paul

“A arte lava nossas almas da poeira do cotidiano.”

(Pablo Picasso)

Quando botou os olhos pela primeira vez naquela cena dos Mares do Sul, pintada por Paul Gauguin, Pablo Picasso ficou extasiado e, sem entender o título ‘Aha Oe Feii Aka’, procurou saber o que significava. Quando ouviu a versão em francês do título, ‘Eh, quoi ! Tu es jalouse ?’, foi contaminado por ciúmes e exclamou:

“- Eu queria ter pintado este quadro.”

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Antes de alcançarem a fama e serem cortejados pela arrogante comunidade artística parisiense, Pablo Diego Ruiz y Picasso e Eugène Henri Paul Gauguin, percorreram trajetórias diferentes, mas paralelas. Paul Gauguin há muito transitava no mundo das artes, após uma carreira de sucesso administrando dinheiro alheio. Pablo Picasso era um jovem de 19 anos, com muitas ambições e imprecisas vocações, quando embarcou em Barcelona rumo a Paris. Em 1901, uma centelha desperta o gênio que dormia em seu interior. Um amigo, o pintor espanhol Paco Durrio, lhe apresenta telas e esculturas que guardava em seu estúdio em Montmartre. Foi um deslumbramento para Picasso, que vivia dias de miséria, sem dinheiro para comprar tintas e pincéis.

Entusiasmado, ele quer conhecer o autor dos desenhos e cerâmicas.

Paco Durrio lhe diz que o artista se chamava Paul Gauguin e que estava a bordo de um navio cargueiro a caminho dos Mares do Sul. Conta que o pintor voltava ao Tahiti, após uma desavença com Vincent Van Gogh, que o ameaçara com sua navalha. Movido por impulso, Picasso junta o dinheiro reservado para comida e vai a uma livraria no Boulevard Saint Michel, onde compra o álbum ‘Noa Noa’, com reproduções de desenhos e pinturas de Gauguin, com paisagens e nativos do Tahiti. Aquele livro marca a influência de Gauguin na obra de Picasso. Anos mais tarde, estudiosos do movimento impressionista identificariam nas anotações rabiscadas às margens do livro, inequívocos sinais da presença de Gauguin na obra do mestre espanhol. Por curiosa coincidência, pouco mais tarde, em 1903, Picasso pinta um quadro de uma jovem com aparência polinésia e assina ‘Paul’ Picasso. Naquele mesmo ano, Paul Gauguin morre em uma remota ilha da Polinésia Francesa. Tinha apenas 54 anos.

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Apesar de trajetórias de vida que não se encontraram, os dois artistas revelam similitudes impressionantes. Nos anos anteriores a 1907, quando usava o estúdio emprestado por Paco Durrio, Pablo Picasso trabalhava os mesmos materiais favoritos de Gauguin – cerâmica, madeira e óleo sobre tela. E, por algum tempo, explora o estilo do primitivismo para retratar solidão, miséria e abandono. Um olhar mais demorado sobre a Fase Azul nos mostra aqui e ali, detalhes, vestimentas e posturas das figuras polinésias de Gauguin. Talvez a inspiração tenha nascido em ‘Noa Noa’, onde Gauguin explicita sua paixão pelos Mares do Sul:

“Estou saindo para ter paz e sossego.

Para me livrar da influência da civilização.

Eu quero a arte simples de fazer e tentar ser capaz de fazer.

Preciso mergulhar na natureza virgem, não ver ninguém,

a não ser selvagens, tentar viver a vida deles,

sem outra preocupação em mente.

Deixar que os conceitos se formem em meu cérebro como os de uma criança e fazer isso sem ajuda, a não ser a dos impulsos

primitivos de arte, os únicos bons e verdadeiros.”

Pode-se supor que ‘Noa Noa’ tenha sido um simples alumbramento que transformaria Pablo Picasso no artista inovador que desafiaria a arte convencional. Mas, sem dúvida, as mulheres taitianas foram personagens permanentes no imaginário fantástico do gênio espanhol.

As viagens de Gauguin, sua obsessão pelas figuras rústicas, primitivas, moveram Picasso a devassar a figura feminina em novas formas, cores e estilos, muito além do que era permissível naquele tempo. Seria temerário prever qual seria o universo picassiano se as coloridas taitianas não tivessem povoado sua imaginação. Ele era capaz de absorver com avidez as lições dos grandes mestres que o precederam – sem nunca ter escondido a veneração por eles. Como quando escreve sobre Henri Matisse:

“- Ele faz um desenho. Depois, faz uma cópia e então a recopia cinco, dez vezes, sempre limpando os traços.

Afinal, ele se convence que o último desenho, o mais despojado

é o melhor, o mais puro, o definitivo.

Mas, na maior parte das vezes,

o gênio já estava no primeiro desenho.”

Em seu estúdio em Mougins, no sul da França, permanentemente abarrotado de esculturas, telas, cerâmicas e vitrais de todas as cores, de Picasso tinha poucas telas dos impressionistas. No entanto, em uma grande parede branca se via uma figura gauguinesca/picassiana, a ‘Mulher Ruiva com Girassóis’, um dos últimos quadros pintados por Paul Gauguin no Tahiti.

picasso

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Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.