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A anatomia de uma das ruas do bairro Bom Fim no mapa da minha cidade

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Nestes meus 50 e poucos anos, morei apenas em três bairros de Porto Alegre. No centro, desde que vim ao mundo e até quase os 10 anos, quando ele ainda não se chamava histórico. E, depois, lá pelos idos de 1991 (imagino), onde mais tarde nasceu a minha filha Gabriela e também passou o início de sua infância. Por coincidência ou destino, nas duas fases, habitei imóveis da Rua Fernando Machado. No final da infância e começo da adolescência, fiquei uns 12 anos vivendo com meus pais e irmãos no bairro Cavalhada, numa Zona Sul desconhecida, na Rua Doutor Mário Totta. Mas foi no bairro Bom Fim, que alternei a moradia em quatro ruas diferentes, talvez por mais tempo. Por isso, ouso dizer que conheço a anatomia de algumas vias do bairro.

Assim que a família deixou a Zona Sul, alojei-me na Rua Tomáz Flores, num edifício esplendoroso, defronte a Antão de Faria, uma via tão pequenina que começa na Tomáz e termina na Rua Doutor Barros Cassal, que me abrigou duas vezes nesta vida, na esquina com a Rua Vasco da Gama e hoje, onde me acolhe, na esquina com a Independência. Sou uma completa apaixonada pelas nuanças de paredes dos prédios, quase todos residenciais da Tomáz Flores, pelos sobrados que resistem ao tempo e pelas histórias que a rua me permitiu guardar no baú das memórias da adolescência para a fase adulta. Aliás, namoro há uns três anos um destes sobrados para o caso de tirar a sorte grande na loteria.

No entanto, ao olhar o mapa do bairro Bom Fim, como quem examinasse a anatomia de um corpo (com a licença do poeta Mário Quintana), principalmente nestes seis meses de ócio pela falta de emprego, passei a dedicar mais tempo aos detalhes da Rua Fernandes Vieira. Nesta via, que tem um dos supermercados do bairro, uma locadora, clínicas médicas, duas creches, vários pequenos locais para comer, umas quatro ou cinco lojas de confecções de porte médio, ferragem, dois pets shops e outras particularidades, residi alguns meses alternados enquanto ainda pensava (ou dava um tempo para a relação maturar) se iria mudar-me definitivamente para viver com o companheiro daquela fase.

Apesar de ter sido habitante da Fernandes Vieira em décadas passadas, somente com estes passeios realizados agora, percebi uma característica da via. Nas quadras entre a Rua Vasco da Gama e Avenida Osvaldo Aranha, são poucos os prédios residenciais com nomes de homem. Até tem. Em toda a extensão deste trecho, que compreende duas quadras, contei uns cinco ou seis edifícios com nomes masculinos, inclusive o Maurício de Nassau, onde morei. A maioria estampa na fachada nomes femininos, como Fabiana, Helen, Sheila, Mariane, Odete e outros que não guardei na cabeça. Os que revelam nomes masculinos, normalmente, são os de construção mais recente ou os grandes condomínios.

É uma rua que já me atraía antes, pela sua indecisão em ser uma via só de residência ou mais comercial. Que já me conquistou, quando morei no Maurício de Nassau, pelas suas imensas facilidades de opções de lazer e de bem viver. Que já me seduzia pela variedade de alternativas gastronômicas. Que já me cativava pela inquietude de servir de cama para tantos sem moradia que se esparramavam nas esquinas, mal cobertos, em contraste com muitos endinheirados que entravam correndo nos prédios de nomes femininos. Que já me encantava pelos cachorros a desfilar suas pelagens cuidadas e ostentar orgulhosos seus donos.

Pois, agora, nestes passeios mais frequentes pela Fernandes Vieira, me apaixonei pela feminilidade da rua, pelo perfume sensual que emana dos prédios onde habitam Anas, Marianas, Fernandas, pela coragem de lutar e de enfrentar a labuta de muitas Silvanas, Olívias, Amandas e Suzanas que não ficam nas janelas dos edifícios, às vezes, com seus nomes, vendo o tempo passar. Nesta rua, como já disse o poeta, “há tanta esquina esquisita, tanta moça bonita e uma rua encantada” que nem em sonhos se sonha.

Esta coluna foi originalmente publicada em 17 de junho de 2015.