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Crônicas aéreas

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“Quem tiver provado a sensação de voar,

andará na terra com os olhos voltados ao céu,

pois quem lá esteve, sempre desejará voltar.”

(Leonardo Da Vinci)

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Houve um tempo passado em que eu ficava mais tempo voando do que em terra firme. Aos poucos – e quase sem me dar conta – mimetizei o comportamento dos companheiros cuja vida era voar para cima e para baixo. Passei a conviver com viajantes compulsivos, executivos de multinacionais, simpáticos comissários de bordo e pilotos veteranos.

Então, conheci e decifrei os códigos e ritos que eles usam para sobreviver ao ar rarefeito e ao stress de viver com os pés nas nuvens. Sem mencionar o traiçoeiro jet leg – que derruba os mais fortes e experientes.

Um destes códigos manda manter o bom-humour em qualquer situação, seja ela qual for. Como aquele veterano piloto da Varig, que repetia o mesmo comentário, quando enfrentava a fila de espera para aterrissar em um aeroporto congestionado:

“O sonho de um bom piloto é manter seu número de

pousos igual ao de suas decolagens.”

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Eram outros tempos. Ainda não existiam e-mails ou WhatsApp e nossa comunicação se movia ao ritmo de carros-de-boi. Viajantes frequentes, pilotos e comissários eram bem mais ágeis do que os telex da Associated Press, a maior rede mundial de notícias de então. E, junto com as news navegavam os jokes e as anedotas, quase todas politicamente incorretas.

Graças ao pessoal de bordo, a piada ouvida hoje por aqui, amanhã já estava do outro lado do oceano. E vice-versa – um amigo viajante contava que um dia ouviu no aeroporto de Lisboa uma hilária piada de brasileiro. E, dois dias depois, ouviu a mesma piada no Galeão, contada como piada de português…

Algo parecido aconteceu com esta estorieta, tida e havida como verdadeira:

Havia um passageiro VIP da antiga Transbrasil, que sempre reclamava do gosto de micro-ondas na comida servida nos aviões da companhia. Cansado das cartas iradas do ilustre passageiro, o comandante Omar Fontana, dono da empresa, mandou contratá-lo por um alto salário, como provador-chefe do catering que preparava os pratos de bordo. As cartas cessaram no dia seguinte.

A estória corria solta nos bares dos aeroportos do Rio, São Paulo e Porto Alegre. Curiosamente, uma semana depois, era contada nas rodas de pilotos e comissários no Aeroporto JFK, contada como episódio verdadeiro, mas tendo como protagonistas um passageiro e o CEO da Eastern Airlines.

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O veterano Rick Seaney é colunista do The Wall Street Journal e escreve sobre aviões, aeroportos, passageiros e tripulações. Anos atrás, seu Manual de más maneiras a bordo fez sucesso nas bookshops dos aeroportos de costa-a-costa. Ele relatava episódios, alguns quase inacreditáveis, como o que aconteceu na ponte-aérea Washington/New York, sempre frequentada por senadores, deputados e figuras da fauna política.

A protagonista, Surly Sue, uma ex-miss Texas e chefe de cabine da United. Era loura, tinha 1m80 e um sorriso estonteante. Mas só se dignava atender figurões da classe executiva. Aos demais, reservava um olhar gelado, do tipo “nem pense em pedir mais um pacotinho de amendoim”. Os colegas diziam que ela estava à procura de um senador solteiro ou de um rancheiro rico.

Quando ela sumiu da ponte-aérea, Rick Seaney investigou e soube que Surly achara seu senador republicano, que por coincidência, era também um rancheiro multi-milionário.

Outra – o veterano Jack ‘Rusty’ Allen, piloto da American, estava no voo 2050, que ia de Dallas para Chicago, quando foi chamado a intervir junto a um passageiro da Primeira Classe, que insistia em ter uma garrafa de Moet só para ele. Ao tentar conter o inoportuno, Jack ouviu que ele voltava do enterro de sua avó de 90 anos. Diante do espanto do piloto, o alegre passageiro contou que ela lhe deixara 10 milhões de dólares de herança, mais uma mansão em Maiibu e um castelo na França. Final da estória – o herdeiro ganhou não uma, mas duas garrafas de Moet.

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O colunista ainda fornecia preciosas dicas de sobrevivência em aeroportos congestionados. Dizia que é vital manter a cabeça fria, quando nosso voo atrasa por horas ou quando ficamos retidos em uma cidade no fim-do-mundo:

“Gritar ou esbravejar só complica uma situação já complicada. É preciso

ter em mente que os atendentes de terra estão mais estressados do que

os passageiros. E eles têm um código secreto para estas situações:

os passageiros educados e que falam baixo, vão para o topo da lista de espera. E, no caso de pernoite, ganham o melhor hotel da cidade.

Já os nervosinhos, que gritam e dão socos no balcão…”

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Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.