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Suzanne

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JA

Eu não sei para onde você está indo,
Você não sabe para onde eu vou,
Oh, estátua que eu amei, só tu sabias!”.
Charles Baudelaire, “À une passante”.

A flânerie, tal como a conhecemos, não nasceu ontem. Já no início do século XIX, escritores, boêmios e artistas parisienses haviam descoberto o prazer e o charme de perambular por boulevards e vieux quartiers.

Foi quando surge no cenário uma jovem pintora e modelo, chamada Suzanne Valadon, que foi a primeira mulher a ser admitida na École Nationale des Beaux-Arts, com o apoio de alguns pintores renomados.

Os cronistas da época identificaram na bela Suzanne atitudes inusitadas para uma petite demoiselle quando ela invade a flânerie, o território eminentemente masculino idealizado por Charles Baudelaire. Atrevida e inovadora, ela inventa a versão flâneuse. E escreve:

” Anseio pela liberdade de andar sozinha, sentar nas Tuileries,
ir até o Luxembourg, olhar vitrines, entrar nas igrejas e museus
ou passear nas velhas ruas à noite.
Sem esta liberdade não posso ser uma artista.” 

Além de pintora precoce, Suzanne Valadon se transformaria em musa de impressionistas famosos, adotada como protegée por ninguém menos do que Henri de Toulouse-Lautrec.

Usando o nom de guerre de Marie, ela posa nua aos 15 anos de idade, causando furor nas rodas boêmias da Paris de 1880. Ao mesmo tempo, ofende e escandaliza as vetustas dames parisienses, que não aceitam uma jeune femme andar sòzinha pelos boulevards e posar despida na respeitável Academia de Belas Artes.

Mas logo sua figura graciosa adquire contornos de deusa da vanguarda feminista, quando Pierre-Auguste Renoir a pinta como uma alegre, esvoaçante – e inocente – dançarina em Dança em Bougival.

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A flâneurie foi descrita como um fenômeno precursor da modernidade  que invade os domínios de uma tal “psicogeografia”. É quando Victor Hugo define que caminhar pela cidade era mais do uma mera ocupação diletante, mas a oportunidade de contemplar e redescobrir a cidade que se prepara para ingressar no século XX. Alguns anos antes, no turbilhão da reconstrução de Paris sob o reinado de Napoleão III e do Barão Haussmann, Charles Baudelaire criava a figura do flâneur como um artista-poeta do modernismo urbano:

” A multidão é seu elemento, como o ar é o elemento das aves e a água, dos peixes. Sua profissão é tornar-se carne e osso com os passantes. Como espectador apaixonado, é sua imensa alegria fazer moradia no coração das multidões, como a maré e as ondas em movimento, na névoa fugitiva do horizonte”.

Quase 100 anos depois que Charles Baudelaire imortalizou as fugazes passantes, um estudioso dos costumes parisienses do século XIX, Walter Benjamin, vai definir novos horizontes para a arte de caminhar em Paris. Em seu Projeto das Arcadas, ele indica as galerias e ruas cobertas como cenário ideal para a prática da flâneuse, quando a chuva e a neve tornam impossível as caminhadas por boulevards e quartiers.

O que certamente agradaria a pioneira Suzanne Valadon em suas muitas andanças, seja a caminho do estúdio de Maurice Utrillo, para quem posava e com quem teve um filho, ou servindo de musa inspiradora no apartamento do compositor Erik Satie, na Rue Corot, onde era recebida com versos como estes:

” Teu vulto inteiro, teus adoráveis olhos, tuas mãos gentis e
os pequenos pés que te trouxeram até minha porta”.

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