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Cavalos, bruxas e fogueiras

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Este texto foi escrito para a seção Retratos do Blog da Letrinhas, da Companhia das Letras, onde saiu – vá saber por que – com o título “Infância, um verão interminável”. A ordem que recebi era: escolha uma foto e fale dela. Espero não ter pisado muito na bola. Entre os elogios, se sobressaem os que recebi pelo meu penteado e pela elegância das minhas bombachas. E. S.

Aprendi a andar a cavalo muito antes de andar de bicicleta e sou um cavaleiro cem vezes melhor que ciclista, mesmo em bicicletas ergométricas e mesmo hoje, quando o mais perto que chego de um cavalo é ao assistir de novo Os imperdoáveis, meu faroeste preferido. Mas não lamento ter me tornado escritor e não uma estrela de rodeios. Melhor pros cavalos, pior pra literatura.

Ao olhar essas fotos, tenho certeza de que minha infância e puberdade ocorreram apenas no verão – um verão interminável, sem um único dia de chuva ou tédio, eu sempre a cavalo ou tomando banho de rio ou refestelado numa rede, entre duas macieiras, com livros de aventura, como Tarzan e os homens-leopardos, O último dos moicanos e Os três mosqueteiros, o melhor de todos. Quem falou em outono, inverno e primavera? Quem falou em escola e a proverbial recuperação em matemática? Mesmo depois de ler o verbete no dicionário, não se entende o que a palavra melancolia significa.

Esses verões infantis são avassaladores – pena que sejam fugazes. Em segundos minha memória bota em cena os dias de chuva ou chatice e outras coisas piores que as provas de matemática. Mas essas lembranças não são páreo pra tantos cavalos e tantos dias de sol. Apenas duas me marcaram mais: medo de bruxa e histórias contadas diante da fogueira, sempre à noite. Como se verá, sem elas eu não escreveria como escrevo.

Há muito desisti de saber quando ou por que tinha medo de bruxa. Como foi um medo desgraçado de intenso, parece que durou a infância toda, mas sei que não passou de alguns meses, talvez nem isso. O certo é que eu ia dormir e ficava enxergando a bruxa na porta do quarto. Era sempre a mesma, muito alta, magra e torta pra um lado. Eu jurava que ao menor vacilo meu, ela me agarraria pelo pé e me arrastaria pra sua toca. Até hoje acho adequado uma bruxa morar numa toca.

Minha primeira história pra criança – como todas as outras, por sinal – não foi premeditada, simplesmente aconteceu: uma bruxa invade o quarto de um menino na hora mais escura da noite, na noite mais escura do ano, e acontece o diabo a quatro. Ao contrário de mim, esse menino não é covarde e é mais esperto – ele vence a bruxa num mano a mano com seu próprio medo. Imagino que essa história, em sua mistura de terror e humor – o humor aos poucos corroendo o terror –, traga embutida uma sensação triunfante de vingança plenamente realizada. Isso explicaria a imediata empatia alcançada com tantos leitores – os que não tinham mais medo de bruxa ainda lembravam muito bem dele. Pra mim foi uma surpresa total, porque eu não fazia a menor ideia do que havia escrito.

Tempos depois um menino de uns sete, oito anos, me pediu um autógrafo, me apertou a mão e disse com a seriedade de um velho tio: “Continue assim”. Prometi que sim. Ainda hoje, com meia biblioteca sobre literatura infantil lida, com vários textos escritos na tentativa de entender o que eu e os outros fizemos, me lembro desse menino e penso que continuar assim é não esquecer aquela bruxa na porta do quarto e a mim mesmo morto de medo na cama. Ela e a criança que fui são os responsáveis por tudo. Elas ditam as histórias. O marmanjo de hoje só tem de ouvir direito pra não estragá-las.

Bom Jesus, no RS, tem invernos piores que a bruxa que me assombrava. À noite, no campo, num tempo sem televisão e com rádio que pegava mal, ficávamos horas diante do fogo, conversando fiado ou contando histórias, à espera do sono. Pra minha sorte, meu avô tinha sido um aventureiro e um gozador com mil coisas pra contar; minha avó tinha lidado pessoalmente com almas penadas e minha mãe conhecia alguns contos de fadas. Mas o melhor de todos era meu pai, que tinha um grande repertório de histórias que ia do folclore brasileiro ao europeu ou às mil e uma noites.

Quando tive um filho, pensei em contar pra ele essas histórias. Como não sou um bom contador, tratei de escrever as que eu lembrava melhor – e escrevê-las com a voz, o tom e as manhas do meu pai. Ao lê-las pro meu filho, fui aperfeiçoando isso tudo, principalmente pequenos detalhes circunstanciais, que davam graça e realidade às situações mais descabeladas.

Meu filho cresceu e as histórias ficaram na gaveta por anos. Um dia, acho que em 2006, falei delas pra Heloísa Jahn, que me disse pra mandá-las pra Júlia Schwarcz. Assim nasceu a coleção “Histórias dos tempos em que os bichos falavam”. Também isso devo a meu pai. Se a história começava com esse alerta, eu já sabia: não tinha acontecido com meu pai ou conhecidos dele, mas com gente de fábula, num mundo e num tempo muito distantes. Daí valia tudo.

Olho de novo as fotos. Se eu passasse na rua por aqueles dois meninos e pelo adolescente – é difícil pensar que são um só –, com certeza não os reconheceria. Mas, se não tenho presente a cara deles, lembro muito bem de seus sentimentos – e é a partir desses sentimentos que escrevo. Trata-se de uma ginástica, na verdade: escrever pensando no que emocionaria a criança e o adolescente que eu fui sem deixar que o leitor calejado que eu sou hoje torça o nariz.

Autor
Ernani Ssó se define como “o escritor que veio do frio”: nasceu em Bom Jesus, em 1953. Era agosto, nevava. Passou a infância ouvindo histórias e, aos 11 anos, leu seu primeiro livro sozinho:Robinson Crusoé. Em 1973, por querer ser escritor, entrou para a Faculdade de Jornalismo, que deixou um ano depois.  Em sua estréia, escreveu para O Quadrão (1974) e QI 14,(1975), publicações de humor. Foi várias vezes premiado. Desenvolve projetos literários para adultos e crianças.

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