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Conversas com o vento

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“Somos guardiões de casas velhas,

Almas de sesmarias e de estâncias,

De paredes que suportam seus retratos.”

(Apparicio Silva Rillo)

Aquele ano transcorreu lentamente, escorrendo entre os cadernos de estudo e as brincadeiras na lomba da Ramiro. Depois das chuvas de outono, os casacões de lã voltaram para o roupeiro. Então, chegaram as brisas da primavera e as flores dos jacarandás pintaram as calçadas de azul. Era um sinal de que o verão estava chegando. E com ele, as tão esperadas férias na fazenda.

***

O carteiro me entregou o envelope pardo e na hora reconheci a caligrafia desenhada de meu avô. Eram notícias da fazenda, que a mãe leu em voz alta, omitindo os nomes daqueles que o inverno havia levado, mas caprichando nas notícias boas. Elas diziam que da égua malacara nascera um belo potrilho da mesma coloratura, que o rebanho de ovelhas crescera e que, no alto da torre, o cata-vento já estava funcionando.

O que queria dizer que na fazenda, depois de tanto tempo de espera, agora corria água corrente nas torneiras e a luz chegara para espantar a escuridão. Quando a charrete verde cruzou a porteira de entrada, a primeira visão no alto das coxilhas, foi a alta torre com o cata-vento girando como uma hélice de avião. O progresso chegara à fazenda do Passo Grande, aposentando lampiões e as bacias de alumínio do banho das crianças. E todos encantados com os confortos da luz e da água corrente.

Mas, em um canto da sala, ainda nos esperava um pequeno mistério, desafiando a curiosidade de todos. Na caixa de madeira ainda fechada, marcado ‘RCA Victor’ e ‘Made in USA’, dormia um receptor de rádio de ondas curtas, que chegara junto com o cata-vento, mas que ninguém sabia como instalar, e muito menos como fazer funcionar.

Os mais faceiros com as novidades eram meus primos, que correram para contar e recontar como havia sido a primeira noite sem velas nem candeeiros. Em detalhes, relataram que quando os homens instalaram o cata-vento, o gerador e a bomba d’água, todos interromperam o que estavam fazendo, como se esperassem um milagre descido dos céus.

Era quase isso, pois naquele dia calmo, céu azul, não soprava nem uma brisa. E, no alto da torre, o cata-vento estava travado e imóvel, à espera do vento do Sudoeste. Mais distante, na porta dos galpões, a peonada olhava incrédula, se perguntando como uma simples roda de vento poderia iluminar a casa inteira e ainda puxar água do poço que ficava a quase 200 metros.

***

O suspense não demorou muito. No fim-da-tarde, quando o sol baixava no horizonte, soprou uma leve brisa que agitou o vestido das mulheres e levantou um redemoinho na poeira do terreiro. Logo, quando os longos eucaliptos balançaram ao vento, um dos homens soltou a trava e o cata-vento começou lentamente a girar e logo aumentou velocidade, suas pás assoviando com a chegada do vento salvador.

E, de repente, as lâmpadas piscaram e brilharam com sua luz amarelada. Gritos de surpresa das mulheres e as crianças saltitando, alegres com a novidade que mudaria seu dia a dia. E o avô, ao pé da torre, a barba ao vento, sorria para o alto, vendo o cata-vento girar cada vez mais rápido.

A avó se aproximou, limpando as mãos em um pano branco, olhou tudo ao redor, emitiu um resmungo que poderia ser de aprovação e voltou para o panelão de doce de goiaba, que fervia no fogão a lenha.

E então, a rotina na fazenda mudou do dia para a noite. Ninguém mais “dormia com as galinhas”, pois as lâmpadas acesas na cozinha e nos galpões, convidavam a esticar as rodas de conversa e chimarrão até mais tarde.

Mas o avô havia dado ordens de que era preciso apagar as lâmpadas às 10 horas da noite, para poupar as baterias que ainda não estavam carregadas. E ainda havia um certo mistério esperando por solução – a um canto da sala, a caixa de madeira continuava fechada. Lá dentro, o rádio de ondas-curtas continuava mudo e silencioso. Um dos tios mais velhos, que entendia o castelhano melhor do que qualquer um, folheou por duas vezes o grosso livreto que viera com a caixa, mas não achou o que procurava.

E, meneando a cabeça desconsolado, desabafou:

“- Está tudo em uma língua estrangeira que não entendo.”

***

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