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Coordenadores autoritários X professores sonhadores; Coordenadores desiludidos X professores curriculares

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A busca pelo conhecimento é algo interminável. Quanto mais se aprende mais se sabe que há muito mais a aprender. Em muitos estudos que coordeno me vem à cabeça a obra de Ítalo Calvino, sobre as Cidades Invisíveis e os diferentes elos de ligação para compreender a diversidade do vivível.

Como cientista social e política já coordenei muitos estudos instigantes, em vários segmentos sociais. Mas há um que motiva a reflexão, resultante de estudos qualitativos com professores de ensino superior no RS, que compartilho com o propósito de motivar o debate na área da educação e da necessidade da crença, de ideais e do contraditório.

O que mudou na formação dos profissionais?

O questionamento buscava compreender se as críticas à atuação de diferentes profissionais do mercado estavam associadas a uma mudança comportamental da sociedade ou se há mudanças no bojo das universidades que contribuíram na formação de profissionais com menor engajamento na sua área de atuação. Há muitas variáveis neste debate, desde políticas, tecnológicas e até sociais. Mas a principal reflexão dos educadores com experiência na docência embasa o seguinte ensaio:

Há mais de duas décadas atrás o processo de formação profissional das universidades vivia a dicotomia entre gestores/ diretores/ coordenadores com uma “percepção de direita”, que advinham de nomeações da época da ditadura ou apenas acreditavam em regramento, disciplina e metas. Do outro lado, a maioria dos professores com “percepção à esquerda” acreditavam que os profissionais poderiam ser “agentes transformadores do social”, acreditavam “em um mundo melhor”. Tinham tesão pelo que faziam, estavam motivados a motivar os seus alunos. Repassavam conhecimento com crença, com sonhos, com propósito. Neste bojo, os profissionais que se formavam eram oriundos de gestores que cobravam disciplina e professores que estimulavam os alunos a sonhar.

O tempo passou e os diretores, coordenadores com “tendência à direita” foram se aposentando, saindo de cena. Os professores com “tendência à esquerda” se tornaram diretores, coordenadores, gestores. Durante essas duas décadas estes novos gestores tiveram sucessivas decepções com a política do país, como se sua crença fosse abalada ao longo do tempo e a capacidade de sonhar se esvaindo junto com cada denúncia de corrupção ou malversação de recursos. Muitos se desiludiram ao ponto de defender o voto branco e nulo. A desilusão abalou o tesão e a crença no sonho. Estes gestores passaram a atuar sem a prerrogativa da meta, da disciplina e sem a premissa do sonho. Se tornaram burocratas desanimados.

Os novos professores que ocuparam as cátedras, se formaram em um cenário de distanciamento político e sem engajamento no coletivo, no associativismo e no debate político. Quando aprovados recebem metas individuais de produção acadêmica, onde a pontuação a ser cumprida cria um foco no currículo pessoal, “tudo em nome da pontuação nos órgãos controladores”.

E assim a educação superior passa a se movimentar, com gestores sem metas, sem disciplina e sem sonhos. E, também, com muitos professores sem meta, sem disciplina, focados em suas conquistas individuais.

O resultado disso? Alunos que objetivam fazer o trabalho e a prova para se livrar da cadeira e do professor e que depois nem lembram o que estudaram e sua aplicabilidade. Alunos que não aderem a projetos sociais e envolvimento com ações da comunidade. E os profissionais que emergem, se preocupam muito com seus direitos, com seus benefícios e muito pouco com suas responsabilidades, sem preocupar-se em ser “agente transformador do social”.

Como em toda a regra, há exceções. Temos muitos coordenadores, professores, alunos e profissionais que merecem todo o crédito por sua atuação, pelo seu trabalho de “beija-flor”. Mas o importante é que resgatemos o propósito, a meta, o sonho e a capacidade de mudar o mundo coletivamente.

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