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O tamanho dos mortos

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Um morto tem o mesmo tamanho que tinha quando era vivo? Dizem que um morto pesa menos, 21 gramas menos, detalhe que inspirou aquele filme. Guillermo Arriaga joga um tanto ironicamente com a crença das pessoas que pensam que foi a alma que partiu pra uma melhor, não os pulmões vazios. Pelo menos foi o que ele disse, numa Feira do Livro em Porto Alegre, nos tempos do Amores perros, quando perguntaram que roteiro ele escrevia.

Mas meu interesse é pelo tamanho. Não literalmente, claro. Num conto do Georges Simenon, “O testemunho do coroinha”, há uma cena em que Maigret comenta uma declaração do menino: “Ele me disse que o cadáver era tão grande que parecia barrar a calçada. Ora, é a impressão que dá um morto esticado no chão. Um morto sempre parece maior do que um homem vivo”.

Achei perfeita a impressão do menino. Mas só a impressão do menino.

Eu tive o desprazer de ver três adolescentes esticados no chão: dois motoqueiros, na avenida Ipiranga, e um garoto baleado na cabeça por um pistoleiro do tráfico, numa esquina da Dona Augusta, a de Porto Alegre, localize-se. Todos os três pareciam usar roupas folgadas demais, tipo uns dois números maiores, como se tivessem murchado ao morrer, e pareciam bonecos em poses forçadas. Tive essa sensação com passarinhos: um passarinho morto, na nossa mão, parece muito menor do que era quando vivo, na árvore.

Talvez um homem grande pareça maior morto numa calçada. Mas todos? Me parece que o Simenon força a barra. Talvez um homem pequeno pareça menor ainda morto numa calçada.

Todos os contos de Maigret

Li o segundo volume. Ou reli, porque já conhecia quase todos os contos. Acho “O homem na rua” uma obra-prima. É um dos contos que eu gostaria de ter escrito.

Mas esta nota é sobre uma mancada de tradução. Mais uma – suspiro. No conto “O cliente mais persistente do mundo”, depois de falar do dia maravilhoso de primavera, do clima nos cafés, no prazer do comissário, há a seguinte frase: “Em certos momentos, Maigret tinha vontade de se alongar, como no campo, quando se tem a pele impregnada de sol”. Alongar? Caí na risada – ou não ficou cômico? É evidente que o comissário queria apenas se espreguiçar.

Isso me leva sempre ao mesmo ponto. Os tradutores até sabem as línguas que traduzem. Não sabem é português. Nem eles nem os revisores. Ou sabem, mas fazem o trabalho no automático, sem dar a mínima. Qualquer um, com atenção mediana, sente o ouvido arranhado pelo alongamento do obeso policial.

Os imorais

O Marçal Aquino foi o primeiro a me falar bem do Jim Thompson. Depois foi o Guaraci Fraga. Mas o Fraga foi mais longe: me deu Os imorais. Na contracapa há uma série de frases elogiosas dos mais variados críticos, acho que merecidas.

Mas, o Marçal e o Fraga que me perdoem, me aconteceu com Thompson o que me acontece praticamente sempre com autores policiais. Quando o livro se aproxima do final, começo a resmungar: é que vai ficando evidente para mim os pontos em que o autor barateou as emoções dos personagens para que eles coubessem dentro da trama planejada. Ou simplificam certas cenas de um modo que não consigo acreditar em mais nada.

Mas sabe o que mais me chateia? Eu mesmo usei esses truques baixos.