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Poeta e libertino

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“Ele viveu como um italiano,

se comportou como um inglês

e morreu como um grego.”

(David Bowie)

Em 1817, George Gordon Byron, o sexto Barão Byron, vende Newstead Abbey, sua propriedade ancestral na Inglaterra, pela fabulosa quantia de 97 mil libras, com a ideia de adquirir uma residência em Veneza, a cidade pela qual ele era apaixonado. Mas as tratativas para comprar o lendário Palazzo Gritti no Grande Canal não prosperaram, pois os orgulhosos condes italianos não admitiam vender seu palácio centenário para um poeta inglês de reputação duvidosa. Lord Byron então aluga o Palazzo Mocenigo, próximo à ponte do Rialto e lá se instala, com seus 14 criados, dois cães mastins, dois macacos, uma raposa e um bando de periquitos, que voavam livres pelos quartos e salões.

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Com exceção de alguns amigos ingleses e das incontáveis damas que cortejava, Byron não fez amizades em Veneza. Dividia seu tempo entre seus passatempos, equitação e natação. Cavalgava quase todos os dias no Lido, na companhia de John Cam Hobhouse, que fora seu companheiro nas andanças pela Espanha, Albania, Grécia e Turquia.

Mas a grande atração em Veneza era como Byron praticava sua natação. No tórrido verão de 1818, os venezianos se agrupavam ao longo do Grand Canal para assistir a um espetáculo inusitado: um cavalheiro bem vestido, de gravata e bonnet de veludo, saía de seu palácio, mergulhava no canal e nadava para longe. Ele era um excelente nadador e desafiava os amigos Angelo Mengaldo e Alexander Scottpara para disputar corrida desde o Lido até a Piazza San Marco. E Byron era sempre o vencedor. Questionado pelo cônsul britânico Richard Hoppner qual o segredo de tanta vitalidade e energia, o poeta teria respondido:

“- Muito treinamento e sexo duas vezes ao dia.”

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Mas, mesmo cavalgando no Lido e nadando nos canais, Lord Byron não tinha boa saúde e aos 30 anos já aparentava ter mais de 40. No entanto, nunca demonstrou sinais de arrependimento sobre a vida que levava, mas somente das coisas que deixara de fazer. Soube viver com paixão e intensidade sua temporada veneziana, deixando sua marca em muitos dos lugares por onde andou. No Palazzo Mocenigo, escreveu a primeira parte de Don Juan e alguns de seus poemas mais conhecidos.

No monastério de San Lazzaro, em uma ilha da laguna, ele se hospedou com os monges, com a ideia de estudar línguas antigas. E gostava de passar horas no antigo cemitério judaico do Lido, de onde saia carregado de inspiração. Outro local favorito era Il ponte dei sospiri, que liga o Palazzo Ducale com a Prigioni Nuove, à qual dedicou versos carregados de profunda melancolia.

E no elegante Palazzo Querini Benzon, no Grand Canal, Byron conheceu seu último e grande amor, a bela Teresa Gamba Guicciol, uma condessa de 18 anos, casada com um velho comerciante de Ravenna.

Desde que chegou à Itália, o poeta se confessa perdidamente apaixonado – pelo país, por Veneza e pelas venezianas. A primeira – e a maior – de suas paixões foi Marianna Segati, jovem esposa de um comerciante de cortinas da vizinhança. Ironicamente, o nome da loja era Il Corno, que tinha na fachada como marca, uma cabeça de cervo com longos chifres.

Sem dúvida, a maior interação de George Gordon Byron com Veneza foram suas mulheres. E não apenas belas condessas, mas, em sua maioria, prostitutas locais, que lhe custaram uma pequena fortuna. Em carta a amigos na Inglaterra, ele se gabava de ter se deitado com 200 delas, com as quais teria gasto cerca de 2,5 mil libras – mais de dez vezes o valor do aluguel anual do Palazzo Mocenigo.

Ao visitar Byron em 1818, o poeta Percy Shelley se escandalizou com a promiscuidade do amigo e com a cidade, que lhe parecia ser uma “Sodoma-sobre-o-Canal”. Mais tarde, escreveria que as musas descritas pelo poeta estavam longe de serem elegantes cortesãs venezianas mas,

“…as mais desprezíveis de todas as prostitutas que existem sob a lua

– as mais ignorantes e as mais devassas.”

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Em carta a Douglas Kinnaird, seu amigo e banqueiro, Lord Byron replica o personagem de uma ópera de Mozart, listando as conquistas amorosas, seus nomes, predicados e atrativos. A lista vai desde criadas de quarto, esposas de sapateiros, à ex-amante de Joachim Murat, ex-rei de Nápoles, até uma famosa cantora de ópera, Arpalice Taruscelli.

A personalidade de Lord Byron em Veneza fascinava a todos, homens, mulheres, condessas, prostitutas, criadas, até gondoleiros. Edna O’ Brien, sua biógrafa, anotou que as pessoas eram atraídas por ele como abelhas por um pote de mel.

Em 1824, já prostrado na cama pela febre que lhe seria fatal, o poeta escreve um último poema, que foi considerado como despedida de sua vida aventuresca e romântica em Veneza:

“Assim nós vamos, remando adiante,

Tão tarde, noite a dentro,

Embora o coração ainda seja amoroso

E a lua ainda brilhe,

Que a espada saia da bainha,

Que a alma deixe o peito,

Que o coração pause para respirar,

E que o próprio amor tenha descanso.”

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